Precisamos falar sobre o Kevin
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Nota: 8
Ano: 2011
Ator
1: Tilda Swinton
Ator 2: Ezra Miller
Diretor: Lynne Ramsay
Oscar:
Não concorreu a nenhum.
Se enquadra
nas seguintes categorias: O
mundo é uma merda; Mão na consciência; Suspense psicológico; Manual de como
virar um psicopata; O objetivo é chocar.
Comentário:
Um cinéfilo sempre gosta de ter na manga alguns filmes absolutamente sensacionais,
mas ao mesmo tempo desconhecidos, para recomendar aos colegas e depois receber
o agradecimento pelo mapa do tesouro fornecido. “Precisamos falar sobre o Kevin”
é exatamente isso! Quase ninguém viu, mas todo mundo deveria ter visto!
Ele
é brilhantemente estrelado pela Tilda Swinton (quem? Pois é, ela é o elemento
perfeito para os filmes desse molde. Genial, impactante, sensacional, estupenda!
Mas você vai esquecer o nome dela assim que terminar de ver o filme) e ainda
possui a notável revelação do Ezra Miller.
O
roteiro, baseado em um livro, conta a história de uma mulher (Tilda Swinton)
que casa jovem, engravida em momento indesejado e se vê compelida a abdicar de
seus planos para a vinda de seu filhote. Parece batido né? A conclusão natural
disso seria: E ela se descobre encantada com a experiência de ser mãe e começa
a amar seu filho com todas as forças, e ele, por fim, se torna a alegria de
viver da mamãe.
Pois
é... eis o modelo Doriana imposto e requentado para todo modelo familiar. Mas
aqui a história narrada acontece ao contrário: A protagonista detesta sua
gravidez e não consegue criar um vínculo de amor natural com seu filho (embora
ela tente); e quando acontece o nascimento, tudo leva a crer que seu filho,
Kevin (Ezra) também não gosta nem um pouco dela! Conforme o tempo vai passando,
a relação vai ficando cada vez mais doentia e os conflitos crescem de forma
exponencial e com consequências alarmantes.
Embora
a mãe naturalmente perceba que sua história esteja destoando do natural, ela se
sente incapaz de compartilhar esta situação com os demais: Médicos e
especialistas afirmam que seu filho é normal, as sensações que ela está sentindo
são normais, passageiras e que tudo está controlado; seu marido também entende
que tudo está normal e, como ele aparentemente tem uma relação saudável com seu
filho, não admite qualquer cogitação de que possa existir alguma disfunção
comportamental que exija uma intervenção externa ou ajuda profissional. Por
fim, resta a todos os envolvidos simplesmente fingir que suas vidas e relações
são superficialmente adequadas, trocando todas as suas dúvidas e amarguras pelo
silêncio. E aqui a trama começa a se
desenvolver...
O
filme possui uma profundidade tão grande, um tema tão complexo, que não é raro
vê-lo sendo discutido nas rodas de psicanálise, psicologia, psiquiatria e etc.
Ao mesmo tempo, podemos simplificar tudo falando que se trata de um puta filme
de suspense, capaz de prender sua atenção do começo ao fim, com uma trilha
sonora no ponto certo e com fotografias geniais (mesmo! Obra de arte!).
A
aparente ausência de amor imediato com sua prole é um desconforto que acompanha
todas as mães novatas desse mundo. É por isso que o filme causa um incômodo tão
grande em mulheres jovens. A situação narrada no filme não é a dela, mas potencialmente
poderia ser, e isso gera um pavor completamente justificável.
Peço
agora para quem ainda não viu o filme que pule para o último parágrafo do
texto, ficando aqui o resumo de que ele deve ser visto por qualquer um,
independente dos seus gostos cinematográficos.
A
partir de agora quero deixar algumas reflexões para quem já viu o filme (contém
Spoilers):
Em um
primeiro momento, tive a tendência de concordar com as pessoas que afirmavam
que o roteiro deixa claro a conclusão de que o comportamento de rejeição da mãe
foi fundamental para o desenvolvimento da psicopatia do filho (e neste ponto as
pessoas se dividem entre aquelas que concordam com esta conclusão e as que dela
discordam, falando que o filme é tendencioso e se trata de mais um exemplo de
filme que culpa a mulher por tudo).
No
entanto, refletindo um pouco melhor, penso que o filme sequer conclui neste
sentido. Não há qualquer conclusão categórica nele acerca de quem seria o
culpado; podemos pensar que a culpa está na inaptidão da mãe, na necessidade do
pai de enxergar sua família como perfeita ou até mesmo no próprio Kevin por ser
uma espécie de mal encarnado. Aliás, é preciso mesmo ter um culpado? Estamos
tão perfeitamente enquadrados neste molde, que procuramos um culpado dentro
dele para o desencaixe da realidade com o padrão geral: uma mãe deve amar seu
filho incondicionalmente, um pai deve ser zeloso com os problemas de sua
família e o filho deve ser amável e doce com seus genitores. Será que o
problema não seria o quadro? Quais são as reais causas e consequências para uma
fuga do padrão imposto?
Posso
ir além, na minha opinião, o grande culpado da história é o silêncio! E por
isso o título desse filme é sensacional. Estamos tão preocupados com o molde
que qualquer questionamento sobre a possibilidade de outro encaixe igualmente
correto gera uma anomalia. Ser fora do quadro, por si só, já é um problema,
independente da existência de qualquer consequência negativa. É possível uma
mãe falar que não gosta de um filho, ou vice-versa, sem que isso seja um
problema? Se o fato, por si só, já é um defeito, as pessoas envergonhadas o empurra para debaixo do tapete e fingem que estão dentro do quadro. Talvez, e
aqui sou eu especulando, se fosse aceitável que a protagonista discutisse a
falta de amor recíproca, seria possível perceber que além da falta de carinho,
e talvez até de forma desconexa a ela, haveria uma psicopatia natural de seu
filho que deveria ser adequadamente tratada.
Enfim, minha irmã, ao assistir o filme em 2011, se traumatizou de tal forma que
concluiu que nunca seria mãe. Alguns anos depois, ela se revela a mais
empolgada e apaixonada mãe de gêmeas que já vi em minha vida. Mas se você
perguntar se ela quer ver de novo este filme, é possível que com um imponente
arrepio na espinha ela emita um sonoro “Não” de forma reflexa... mas ela sabe que o silêncio não
é a resposta, ela sabe que precisamos
falar sobre o Kevin!
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