A queda - As últimas horas de Hitler
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Nota: 6
Ano: 2004
Ator
1: Bruno Ganz
Ator
2: Alexandra Maria Lara
Diretor:
Oliver Hirschbiegel
Oscar:
Concorreu a um oscar, mas não ganhou.
Se enquadra
nas seguintes categorias: O
mundo é uma merda; Baseado em fatos reais; Relacionado à história.
Comentário:
“A queda” é um filme que gerou muita polêmica e muita discussão no ano de seu
lançamento. Não foi pequeno o número de exaltados que desaprovavam aos brados o
teor e o conteúdo deste filme. Tudo isso pelo fato de que, inspirado em algumas
obras biográficas, o filme visa relatar os últimos dias da vida de Adolf Hitler
e o desfecho da segunda guerra mundial em território europeu.
A história
sempre foi escrita pelos vencedores. Como Hitler foi o perdedor que mais chegou
perto de ser vencedor em nossa era contemporânea, ele foi erguido ao posto de
Voldemort da história da humanidade. Aquele-que-não-deve-ser-nomeado inspira um
ódio coletivo e uma reprovação quase unânime! O gosto amargo e ruim surge de
forma reflexa em nossa boca ao falarmos de Hitler e seus nazistas. A
repugnância é tão grande que associar alguma conduta ou opinião como sendo algo
compartilhado por Hitler é, por si só, uma ofensa natural, mesmo que ilógica.
Quer um exemplo? Sabe quem era racista? Hitler! (fundamento lógico); Sabe quem
defendia a esterilização de grupos indesejados? Hitler (fundamento quase
lógico); Sabe quem defendia a prevenção positiva utilizando-se penas graves para
infratores? Hitler (fundamento não tão lógico); Sabe quem era vegetariano?
Hitler! (fundamento ilógico).
Não
estou aqui tentando defender o Fuhrer alemão. Obviamente ele liderou uma série
de práticas hediondas e matou uma galera de forma cruel e repugnante. Só fico
admirado que diversos outros líderes fizeram um monte de coisas semelhantes,
com um número de vitimas até mesmo maior, mas não são tão odiados pelo inconsciente
popular. No entanto, vejo como positiva a lembrança geracional de que um mal
deve ser coibido e que qualquer justificativa para o extermínio é equivocada;
se para isso escolhemos como símbolo um ódio extremo a Hitler, que seja!
Voltando
ao filme, o roteiro possui como ponto de
partida a visão e narração de Traudi Junge (Alexandra Maria Lara) desde o seu
primeiro dia como secretária pessoal de Hitler. Conforme esta vai ganhando uma
relação de proximidade e familiaridade com Hitler, o filme suavemente vai
ganhando um novo protagonista e, ao final, passamos a ver os fatos com a
perspectiva pessoal do próprio Adolf e seu bigodinho. Pela quase ausência de
trilha sonora e pela tentativa de se ater ao máximo aos fatos descritos nos
livros paradigmas, o filme ganha um ar de documentário, e o espectador possui a
sensação de que cada cena corresponde à estrita veracidade da história real.
Além
de uma fotografia brilhante (deixando tudo mais nu e cru, como se verdade fosse),
deve-se destacar a atuação de Bruno Ganz como Hitler. Aliás, esta atuação é a
essencia e o carro-chefe da obra. É quase impossível não acreditar que o
próprio Hitler esteja estrelando o filme; e a ausência de uma premiação de
Oscar para o ator principal é digno de lamentação (ele sequer foi indicado ao
prêmio).
Por
ser muito extenso, não tenho como não admitir que o filme se torna cansativo. A
tentativa de aproximar o ocorrido com a realidade impede que apareçam muitos
clímax e anti-clímax na obra, tudo fica mais parado, e a sonolência é
inevitável. Todavia, aos interessados pelo tema, temos um prato cheio! Digno de
ser exibido em aulas de história ou objeto de análise pelos amantes do passado.
Quem
não viu o filme e lê esta resenha se pergunta: E por que raios esse filme gerou
tanta polêmica? O motivo principal se encontra na tentativa de humanizar
Hitler. O protagonista é colocado na obra quase de forma esquizofrênica, capaz
de ser tomado por um furor de ódio, mas ao mesmo tempo demonstrar uma bondade,
uma humildade e uma benevolência para seus subordinados e companheiros.
Afinal,
qual de nós, diante de uma derrota quando quase se conseguiu ter o mundo em
mãos, não alternaria entre a compaixão com seus seguidores e a fúria diante de
seus revéses? Humanizar Hitler gera pavor e desaprovação, por nos aproximar
dele. A lembrança de que Hitler era um simples ser humano nos amedronta, por
gerar a idéia de que poderíamos ser como ele, ou melhor, que poderíamos ser
ele! É muito mais fácil pensarmos que os nazistas eram um bando de loucos sem
noção que possuíam um coração negro no meio do peito. Um conto de fadas faz com
que todos possam dormir felizes.
No entanto, a lembrança de que a fúria e o
ódio são naturezas humanas nos tornam mais senhores de nós mesmos! E muito mais
capazes de impedir que um novo Voldemort surja! Agradeço ao filme por isso, e
espero que outros nessa linha sejam produzidos.
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