O leitor
Tweet
Nota: 7
Ano: 2008
Ator 1: David Kross
Ator 2: Kate Winslet
Diretor:
Stephen Daldry
Oscar:
Concorreu a 5 e ganhou um.
Se enquadra
nas seguintes categorias: O
mundo é uma merda; Relacionado à história; Escapista; Antropologia poética; Te
vejo no tribunal.
Comentário:
Os filmes de Stephen Daldry, entre eles o consagrado “As horas” e o recente “Tão
forte e tão perto” estão provavelmente entre os maiores desafios dos atores de
Hollywood. São filmes em que os artistas devem interpretar pessoas que possuem
poucos estímulos exteriores para esboçarem reações e interagirem com o meio,
mas que silenciosamente devem lidar com uma eclosão de sentimentos geradores de
angústia em níveis kafkanianos. Interpretar algo parecido deve ser um grande
desafio para qualquer gênio da atuação.
No
presente caso, a brilhante, e futura substituta de Meryl Streep, Kate Winslet
cumpre este papel com perfeição! O filme é, do começo ao fim, um verdadeiro
show de atuação da protagonista de Titanic (qual o motivo dela ter ficado
marcada como Rose em meio a tantos outros personagens de excelente qualidade?).
Não bastando, o capaz Ralph Fiennes e o promissor David Kross completam a
missão de tornar este filme um verdadeiro sucesso.
É
certo que os filmes deste diretor não são movimentados, chamativos e, por isso,
são chamados de cansativos e “parados” por muitas pessoas (que não deixam de
ter razão), mas são filmes com profundidade assustadora, que resultarão em
reflexões posteriores pertinentes e um sentimento inquietante difícil de se
explicar; talvez pelo fato do filme falar com o seu estômago, e não com o seu
coração. De qualquer modo, é certo que, ao final da obra, você será uma pessoa
diferente daquela que começou a vê-la, uma vez que, mesmo que de forma mínima,
sua visão do mundo ganhará uma nova perspectiva.
Em “O
leitor”, o roteiro conta a história de Michael Berg (David Kross), um
relativamente abastado adolescente alemão do período pós-2ª guerra mundial, que
conhece uma mulher mais velha, Hanna (Kate Winslet), pobre e inculta. Os dois
começam a ter relações sexuais que resultam em diferentes experiências para
cada um dos envolvidos. Para o garoto, sua tentativa de racionalizar estas
relações resultam em uma tentativa de romantizar tudo e tentar fazer a relação
se tornar algo amoroso. Para a mulher, a tentativa de tornar aquilo algo frio,
distante e simplesmente mais um acontecimento de sua triste vida sem
significado é patente. Em um primeiro momento somos levados a acreditar que o
filme se limitará a este tema (o que faria tudo ficar menos elogiável e mais
parnasiano), quando somos subitamente arrancados para outra temática: A mulher
desaparece sem aviso prévio; 8 anos se passam; e o jovem Michael, agora
estudante de direito e integrante do grupo de estudos dos julgamentos dos
acusados dos crimes nazistas acontecidos durante a guerra, é surpreendido ao
revê-la sentada no banco dos réus, sendo responsabilizada pela morte de
centenas de judeus.
É
nesse momento que o filme alcança sua verdadeira pretensão: Tentar relatar,
racionalizar e entender todos os sentimentos e condutas dos dois durante e após
este julgamento, tendo em vista a inevitável ligação do passado entre ambos. O
garoto é simplesmente arrebatado pelas memórias de seu primeiro amor ligadas à
alguém acusada de tantas atrocidades e o sentimento de culpa passa a ser a
temática da película. Mas culpa do quê? A culpa do menino por ter tanto carinho
por alguém responsável por fatos tão lamentáveis? A culpa da mulher por ter
feito o que fez? A culpa do jovem por abandonar uma pobre mulher que o ajudou
em um passado próximo nos momentos de linchação pública? A culpa do homem por
ajudar esta mulher que lhe fez tão bem, mas fez tão mal à sociedade?
Como
lidar com tais sentimentos complexos maximizando a alteridade que sentimos por
cada um dos envolvidos? O ser humano só sabe lidar com a culpa de uma forma:
Buscando o perdão! E é isso que o protagonista tenta fazer nesta trama tão
profunda, mas a pergunta que mais me incomodou durante toda a obra: Perdão de
quem?
Garanto
para quem leu até aqui que o filme não é tão chato como ficou parecendo nessas
linhas. Ele é provocador, instigante e meio parado, embora extremamente belo.
Não é um filme dispensável, e muito menos descartável! Fica, então, a
recomendação para o sábado à noite.
Anterior
Próximo

