Exibir Cartazes

Advogado do diabo


Nota: 6
Ano: 1997
Ator 1: Keanu Reeves
Ator 2: Al Pacino
Diretor: Taylor Hackford
Oscar: Não concorreu.
Se enquadra nas seguintes categorias: O mundo é uma merda; mão na consciência; O quê????; Traição conjugal; Frases de efeito; Alegoria de religião; O objetivo é chocar; Te vejo no tribunal.
Comentário: “Advogado do diabo” é um filme que, desde o seu início, objetiva criticar um comportamento humano: A busca incessante do homem em satisfazer sua própria ambição e vaidade. Esta crítica não é feita de forma sutil; ao contrário, é escancarada, impetuosa e até mesmo apelativa. Desta forma, a aprovação do público em relação à obra está diretamente interligada com a concordância ou não com a crítica elaborada. Gostou da forma que a crítica foi feita? Gostou do filme. Achou tosca? As demais qualidades do filme não serão devidamente apreciadas.
Não são poucos que vibram com a lição de moral exposta na obra. Eu (e muitos outros também), no entanto, me irrito profundamente com a forma que ela é feita, com um moralismo superficial e uma argumentação recheada de retórica. Isso porque a ambição inesgotável do homem, fruto de sua perdição, é exposta na pele de um advogado (Keanu Reeves), e eu, formado em direito, não consigo engolir a forma apelativamente maniqueísta que a prática jurídica é exposta na película.
Com efeito, o filme conta a história do Dr. Lomax (Keanu Reeves), um talentoso advogado do júri que consegue ganhar todas as causas e inocentar seus clientes. Este homem é então contratado para trabalhar em uma grande firma e o poderoso proprietário desta (Al Pacino), cativado pela eficiência de seu empregado, começa a tentar ser o tutor deste prodígio. Fissurado pela ideia de seu sucesso, o protagonista passa a se importar apenas com o trabalho, abandonando sua mulher (Charlize Teron) e todos os seus princípios em busca da vitória. Por fim, toda a discussão moral alcança patamares religiosos, e, acredite se quiser, a dicotomia Bem X Mal chega ao ponto de envolver Deus e o diabo (literalmente).
Meu primeiro desconforto com a obra ocorre logo nos primeiros minutos: Odeio esta falsa representação de que existe o advogado mágico, que irá tirar da cartola todas as soluções para “ganhar” um embate no tribunal de júri. De fato, esta narração costumeira nos cinemas da prática jurídica faz com que as pessoas tenham a falsa expectativa de que o processo jurídico é um grande teatro e que, para ser bem sucedido no mundo, basta ter um destes “advogados-mágicos”. Esta compreensão falaciosa faz com que as pessoas percam a fé na importância e na utilidade do Direito, pois esta versão ignora que a maior arma para se “ganhar” uma ação judicial é simplesmente estar do lado do justo, do legalmente permitido. É claro que um bom advogado será vital para garantia de seus direitos, mas deve-se entender que são pouquíssimos casos em que a realidade pode ser torcida e retorcida pelo advogado, com provas aparecendo aos 45 minutos do segundo tempo, garantindo o sucesso de seu cliente. O que fará a diferença nos casos será sempre a boa exposição dos fatos (com muito mais importância na palavra “fatos” do que na palavra “exposição). Vale sempre frisar: O Júri não é uma partida de futebol! O advogado, em 99,5% dos casos apenas conseguirá, com muitos méritos, que seu cliente tenha a correta lei aplicada ao caso em exame, com todos os seus reais direitos resguardados. A fama “Nunca perdi um caso” é uma falácia besta do cinema que eu não engulo. Ter um cliente que é culpado de um crime sendo condenado com uma pena justa pelo devido procedimento previsto em lei, sem excessos ou abusos, sempre será uma vitória para um bom aplicador do direito.
Mas o segundo desconforto é aquele que mais consegue me tirar do sério: A famosa certeza de que “advogado de bandido é bandido também”. Bom, sem querer cansar todo mundo com discussões jurídicas, devo lembrar a todos que um dos maiores méritos a serem buscados por uma sociedade é a construção de um procedimento justo para seus pares. Este julgamento justo só será alcançado com a imprescindível participação de um advogado que defenda os interesses de um réu. Criticar, portanto, a árdua tarefa de defender alguém culpado é criticar o próprio sistema, inconscientemente desejando que suspeitos sejam condenados sem qualquer chance de real defesa. Insta ressaltar que a defesa não se limita a tentar inocentar uma pessoa, mas buscar uma justa pena, evitar a prática de abusos por autoridades, entre muitas outras lutas diariamente travadas pelo advogado. É claro que a conduta maliciosa de criar mentiras, gerar entraves e impedir a busca pela verdade real dos fatos deve ser reprovada e coibida. Mas reforçar o famoso preconceito geral com réus e seus respectivos advogados não é, na minha opinião, um filme denuncista adequado, sendo, na verdade, um desserviço para a sociedade contemporânea.
A lição de moral de pano de fundo, entretanto, é valida e positiva. As reflexões sobre os sacrifícios pessoais que fazemos apenas para suprir a sede de sucesso de nosso ego é válida, e mostra o quão difícil é afastar o homem de seus pecados capitais. Embora a tese seja muito bem construída, não gosto do seu desfecho (acho desnecessária a introdução da religião na discussão, porque afasta da controvérsia aqueles que não são crentes em Deus, Diabo e etc., mas que também encontram-se perdidos nas lutas dos seus valores morais contra seus egoísmos ambiciosos. Não bastando, o fim é extremamente forçado e apelativo, fazendo tudo parecer uma novela mexicana diabólica).
Entretanto, não há como negar que a película possui uma execução irretocável. A fotografia é extremamente competente. A trilha sonora está perfeitamente adequada. E a atuação de Al Pacino é de tirar o fôlego (a de Keanu Reeves é a mesma de sempre, mediana com pouca expressão, exatamente o contrário de Pacino). É uma pena que o filme tenta tanto ser uma denúncia e esquece tanto que é um filme, se lembrasse, seu potencial de entretenimento seria muito maior.
Portanto, embora minha reprovação pela tese defendida pela obra me impulsione a dar notas mais baixas, a boa execução do conjuto faz com que eu me atenha a uma nota mediana. Um ótimo filme sobre concepções que eu detesto.