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Tropa de elite


Nota: 9
Ano: 2007
Ator 1: Wagner Moura
Ator 2: André Ramiro
Diretor: José Padilha
Oscar: Não concorreu.
Se enquadra nas seguintes categorias: O principal é imbatível; O mundo é uma merda; Mão na consciência; Vale pela trilha sonora; Baseado em fatos reais; Frases de efeito; Vendetta; Máfia; Manual de como virar um psicopata; Ação sem fôlego; O objetivo é chocar; Policial.
Comentário: O filme “Tropa de elite”, baseado no livro “Elite da tropa”, é um dos filmes mais repletos de sentimentos antagônicos que já vi. Não é que alguém questione sua qualidade! Ao contrário, é unanimidade que a obra é de uma qualidade impressionante, sendo considerado por muitos a melhor película já feita pelo cinema brasileiro. Contudo, nunca vi um filme ser apreciado por todas as tribos da sociedade por motivos tão diferentes: De um lado, os vangloriadores dos serviços do Bope, “que dão aos bandidos o que eles merecem”, e do outro, os defensores dos direitos humanos, “que finalmente encontram o filme-denúncia que revela os grandes abusos geralmente praticados pelos policiais brasileiros”. No meio disso tudo, encontra-se a maioria das pessoas, que, como eu, não conseguem racionalizar totalmente o filme, mas sabem que amaram o que viram.
Tento explicar essa falta de racionalidade supracitada: É impossível não gostar do capitão Nascimento (Wagner Moura) e sua turma! A repugnância à corrupção, seu tortuoso senso de justiça, sua calma, coragem e hombridade perante o perigo fazem brilhar os olhos de qualquer ser humano (e ainda, não podemos esquecer de sua agressividade, ao mesmo tempo contida e explosiva, a qual infelizmente atrai o ser humano de forma irracional, já que somos tão inconscientemente inclinados a gostar de violência). No entanto, não podemos deixar de observar que estes policiais representam o produto defeituoso de nossa sociedade doentia. O desprezo aos procedimentos legais, a impetuosidade e a violência desregrada destes supostos defensores da lei os transformam em outra coisa diferente de simples protetores da sociedade, muito mais próximo a um esquadrão de extermínio. Trata-se  da solução informalmente encontrada para responder à impunidade gerada por um sistema que faticamente premia a impunidade. A conduta de violência destes homens não deve ser admitida como aceitável por aqueles que buscam a paz e a justiça com base nos direitos fundamentais de nossa Constituição. Portanto, a famosa tropa de elite se revela um verdadeiro batalhão de anticorpos de nosso corpo doente, mas repleto de células cancerígenas que podem nos matar.
Nesse contexto, o cidadão comum não sabe como lidar com a violência explicitada pela obra; acabamos, surpreendentemente, achando engraçado, surreal demais, muito longe da nossa realidade, e acabamos nos divertindo. Difícil, contudo, é refletir que o filme é baseado em uma enorme quantidade de fatos reais; preferimos ver o filme apenas como uma colossal e divertida obra cinematográfica, já que ver aquilo como uma denúncia da realidade é desgostoso demais.
Enfim, desde o filme “Cidade de Deus”, o cinema brasileiro descobriu um novo gênero de linguagem muito poderoso: o da violência miserável. Até então nossas obras eram sempre focadas em pornochanchadas (que são horríveis), no gênero miséria-poética-brasileira (que é ótimo) e em comédias leves (que são médias). A violência acrescida da pobreza brasileira deu o verdadeiro tom de qualidade do nosso cinema dos primeiros anos do novo milênio. Em primeiro momento isto pode parecer algo ruim, mas observe que é um acontecimento natural, passível de ser encontrado em todos os lugares do mundo: como nos EUA na época dos faroestes, no oriente nos filmes de luta e na Europa em seu período denuncista. “Tropa de elite” é a obra-prima deste período, que infelizmente não teve o alcance o reconhecimento mundial que merecia. Acredito que ele não teve o mesmo sucesso fora do Brasil por retratar uma linguagem muito típica deste país, mas mesmo assim acho um absurdo a opinião mundial de que se trata apenas de “mais um bom filme”. Pra mim é um filme extraordinário!
O roteiro é simplesmente estupendo: conta a história do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro nos dias em que o papa veio visitar o Brasil. Este batalhão ficou encarregado de apaziguar os morros, tomados por traficantes, que seriam visitados pelo pontífice (traduzindo: deveriam matar ou prender todos os integrantes do poder paralelo que ali se encontravam). Esta missão ingrata coincide com os últimos dias do Capitão Nascimento no batalhão, já que ele pretende se aposentar e encontrar alguém para assumir seu posto. Ao mesmo tempo, o filme narra o processo seletivo dos novatos do batalhão e os primeiros dias destes novos integrantes da tropa. Entre eles, Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), dois amigos e potenciais sucessores do competente capitão (é curioso que no Brasil, o grande protagonista é visto como sendo o capitão Nascimento, enquanto no exterior os dois aspirantes são apresentados como os grandes protagonistas da obra).
Com uma fotografia nivelada pela excelência (muito acima do nível normalmente encontrado no Brasil), uma trilha sonora ousada (marcante e tipicamente brasileira), atuações de tirar o fôlego (Wagner Moura, um ator com reputação mediana no país, tornou-se um dos grandes ícones da atuação. Com mérito! que interpretação absolutamente fantástica!), e um roteiro cativante (com falas que serão eternizadas nas gírias do povo), Tropa de Elite alcançou o status de uma das maiores obras da sétima arte, não devendo perder tal condição nas próximas gerações. Ele pode não transmitir a mensagem que você gostaria que representasse a realidade de nosso país, mas possui o máximo de qualidade que um espectator de cinema pode querer.