Queime depois de ler
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Nota: 5
Ano: 2008
Ator 1: Frances McDormand
Ator 2: George Clooney
Diretor: Ethan Cohen/ Joel Cohen
Oscar: Não foi indicado
Se enquadra nas seguintes
categorias: Humor britânico; Traição conjugal; Alternativo; CIA.
Comentário: O filme “Queime
depois de ler” não é um filme que agrada facilmente. Afinal, os desavisados que
vão assistir à obra podem acreditar se tratar de um ótimo thriller de
ação/drama, e ele está longe disso. Os que pesquisaram sobre o filme antes
podem ter a franca expectativa de assistir um filme de comédia recheado de
humor negro, e saem decepcionados por não terem dado nem uma risada ao final (qual
o motivo de tantos críticos de cinema falarem que este filme é uma comédia de
humor negro? Ou é uma bizarrice coletiva ou eu estou longe de saber o que é
humor negro). Ainda, o filme aparece no auge do sucesso da trilogia “X homes e
um segredo”, de modo que os fãs de Clooney e Pitt também esperavam ver uma nova
atuação da dupla dinâmica; todavia, eles atuam apenas em uma cena rapidíssima
juntos, sendo mais um grupo que saiu decepcionado dos cinemas. O filme, na
verdade, não busca ser uma comédia, mas apenas visa ser cômico, no maior estilo
Gil Vicente (isto é, ele não busca criar piadas para o público rir, mas apenas
visa mostrar uma história totalmente esdrúxula com personagens caricatos para
fazer críticas sobre a sociedade). Portanto, acho que todos devem concordar que
não é um filme que agradaria ao público em geral (se a crítica fosse mais
enfática ou extremamente bem elaborada, ela até ganharia maiores adeptos, mas como
ela é simples em todas as suas perspectivas, o desagrado é comum).
A história começa com um agente da
CIA, Osborne Cox (John Malkovich), sendo demitido de seu trabalho e, em crise,
decidindo começar um diário sobre suas experiências. A angústia de Cox não se
limita ao emprego perdido, ele está infeliz por estar envelhecendo e seu corpo
estar enfraquecendo e, ainda, existe o fato de que sua mulher está o traindo
com um funcionário do departamento do tesouro (George Clooney). Durante suas
sessões de academia para melhorar sua estima, o agente deixa cair seu diário,
que é recuperado por Linda (Frances McDormand, atriz desconhecida que vira e
mexe é indicada ao oscar. Dizem as más línguas que devido ao fato de ser casada
com famoso diretor de cinema) e por Chad (Brad Pitt), dois funcionários da
academia caricatos que representam toda a imbecilidade da cultura fútil que
inunda nossa rotina. Quando estes funcionários resolvem ler o diário, ambos
pensam que acabam de encontrar um documento altamente secreto da agência
nacional (típico pensamento de quem viu televisão demais). Linda está ansiosa
para fazer uma cirurgia plástica para ficar mais atraente e ambos decidem
tentar arrumar um dinheiro com este achado, seja extorquindo o proprietário,
seja tentando vender as informações para os países adversários (no maior estilo
“guerra fria” de filme b). Pronto! Como
diria a vinheta da Globo, esta história vai resultar em altas confusões.
O ingediente cômico da trama é
que os dois funcionários da academia, toscos por natureza, pegam este simples
documentos e fantasiam sobre sua importância no maior estilo cinematográfico, começando
a se comportarem como agentes secretos e sonhando em vivenciarem uma aventura
inesquecível. Não consigo deixar de associar com aquela história do rapaz que
roubou o enem e tentou vendê-lo para o jornal como informação top-secret do
governo. Esta aí a primeira crítica que pauta o filme: O vazio de nossas vidas
e o excesso de televisão e cinema fazem com que sejamos carentes por uma
aventura igual a que vemos nas telinhas.
A segunda crítica evidente é a
limitação de nossa felicidade básica ao narcisismo e à satisfação de nossos
desejos sexuais. De fato, todos os personagens do filme possuem como força
motriz de suas condutas a insatisfação com o próprio corpo: John Malkovich está
inseguro por estar ficando flácido, Linda só quer uma cirurgia para ficar
atraente, Chad é obcecado por malhação e atletismo, Clooney se comporta como se
fosse um garoto embora esteja longe de seus tempos áureos e etc. Ademais, todos
os personagens são claramente divididos entre o time que possui vida sexual
satisfatória e o time que não possui.
As interpretações de destaque
ficam para John Malkovich (perfeito em ser um cidadão completamente cansado da
imbecilidade que o rodeia) e para Brad Pitt (este filme é a prova real da
grande versatilidade deste ator. Seu personagem caricato é extremamente bem
realizado e poderia ter sido melhor aproveitado em uma trama mais complexa, ou
pelo menos mais engraçada). Clooney oscila com cenas muito bem feitas e outras
em que ele não parece muito interessado. O grande destaque negativo vai para
Frances, que faz uma personagem tão desagradavelmente caricata (literalmente,
cheia de caretas forçadas) que apenas reforça a velha fama de ser uma mera
sombra bajulada em razão da fama do seu marido.
Enfim, o filme obteve sucesso na
sua missão de criticar a sociedade, e foi também um sucesso de bilheterias.
Entretanto, foi extremamente criticado pelo público técnico (sabe aquele filme
que gera tanta crítica que você fica com vontade de ver só pra criticar? Até
nisso esse filme pode decepcionar. Fui assistir crente que ia detestar e
destilar o veneno, mas acabei não achando ele tão ruim assim). Portanto, é
possível que uma pessoa que tente assistir o filme de mente aberta consiga ter
prazer com seu roteiro, mas ele dificilmente será aplaudido de pé por alguém.
Mesmo assim, deve-se admitir que é uma película sui generis, não se encaixando em nenhum dos padrões aos quais
estamos acostumados.
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