A lista de Schindler
Tweet
Nota: 7
Ano: 1993
Ator 1: Liam Neeson
Ator 2: Ralph Fiennes
Diretor: Steven Spielberg
Oscar: Concorreu a doze oscars e
ganhou sete.
Se enquadra nas seguintes
categorias: O mundo é uma merda; Mão na consciência; Baseado em fatos reais;
Relacionado à história; O objetivo é chocar.
Comentário: O genocídio de judeus
realizado pelos membros do partido nazista foi escolhido pela população
mundial para ser o de maior destaque e o mais repudiado pela raça humana. Não
que não tenham existidos outros massacres com o mesmo número de mortos ou com
os mesmos requintes de crueldade que este (infelizmente o ser humano é responsável
por inúmeros eventos vergonhosos envolvendo a morte do próximo), mas, por
diversos motivos que não poderiam ser retratados em uma simples resenha, eis
que o massacre dos judeus nos últimos anos da histórica segunda guerra mundial tornou-se a maior alegoria da maldade,
pois será sempre utilizado como o exemplo de como os homens são capazes de
fazer atrocidades com os próprios integrantes de sua espécie, especialmente
quando estão envolvidos por um movimento em massa recheado de ódio e
sustentados por um sistema podre que ratifica e apóia o comportamento genocida.
“A lista de Schindler”, por sua
vez, foi eleito pelo público e pela crítica, dentre os inúmeros filmes sobre o
tema, como a melhor obra cinematográfica que procura retratar os horrores aqui
citados. Portanto, o filme objeto desta resenha é a obra-prima acerca do
genocídio mais famoso da história da humanidade. É esta a magnitude da película
que será analisada nesta resenha (fiquei intimidado por mim mesmo a continuar
escrevendo. Impressionante!). Bom, vamos a este desafio!
A história, baseada em fatos
reais (de forma muito fidedigna, segundo alguns especialistas), conta a
trajetória de Oskar Schindler (Liam
Neeson), um nazista que enriqueceu às custas da guerra, fabricando
munições para o exército alemão utilizando-se da mão-de-obra barata dos
escravizados nazistas e que frequentemente utilizava-se de suborno e de muita
puxação de saco para agradar os mais altos do escalão do governo nazista. Este
senhor, com os predicados aqui apresentados, é surpreendentemente considerado
um dos maiores heróis do povo judeu deste período! Como assim?! Embora pareça
impossível, este mesmo homem é responsável por salvar o máximo de judeus que
ele poderia deste massacre, e, ainda, às custas do bem que até então ele considerava
ser o mais precioso de todos: Sua fortuna.
Embora muitas pessoas retratem
Schindler como um homem dotado de enorme generosidade, bondoso e etc., não é
esta forma que o vejo. Em um estado natural, sem a ocorrência dos massacres
aqui citados, Schindler seria um típico empresário egoista, que não se
importaria com o bem estar do próximo e enriqueceria às custas de subterfúgios
que prejudicassem os demais. O que o torna um ser tão maravilhoso, digno de
cada aplauso ou glória que já lhe atribuíram, não é o seu caráter perante uma
sociedade comum, mas a sua conduta corajosa e inspiradora de defesa da vida
perante o genocídio desmedido.
É interessante traçar um paralelo
do perfil de Schindler com o antagonista Amon Goeth (Ralph Fiennes) e,
doravante, com todo o povo alemão. Embora nos julguemos independentes e
senhores de nós mesmos, devemos reconhecer que somos altamente influenciados
por nosso meio e que uma atitude que hoje nos causa horror poderia ser facilmente
aceita se chancelada pelo Estado e apoiada por todos ao nosso redor. É assim
que muitos dos alemães da época aprovaram e aplaudiram os atos dos nazistas
perante os judeus. Atos que só podiam ser aceitos por uma sociedade após anos
de pregação do anti-semitismo e de propagação do sentimento de supremacia da
raça ariana (não se deve olvidar que a maioria do povo alemão apenas tinha
conhecimento dos maus-tratos e da segregação realizada, sequer tendo
conhecimento da prática do genocídio em massa). Em situações como esta, seria
difícil um homem reconhecer com total consciência os crimes contra a humanidade
que estavam sendo realizados no local. Afinal, é fácil estender a mão para
aquele que todos acham que merece ajuda; o difícil é estender a mão para aquele
que ninguém ao seu redor acha que merece viver.
Schindler, portanto, era apenas mais um do
povo alemão que considerava perfeitamente aceitável a conduta dos nazistas, mas
que, de forma súbita, teve consciência dos horrores contra a humanidade que
estava testemunhando e resolveu fazer o máximo que podia para evitá-los. A
questão fulcral está exatamente nesta questão: Como se comportar quando se toma
conhecimento dos horrores que estamos testemunhando? A maioria se acovarda e
aceita a situação como algo inevitável, tentanto apenas ter o mínimo de
participação nestes atos reprováveis. Outros, como Amon, representam o que de
pior existe na raça humana, pois, consciente de tudo, opta por participar do
horror e se regozija com o sofrimento por ele perpretado. Mas, por fim, temos
pessoas como Schindler, que não conseguem aceitar a omissão ou a maldade e
optam pela busca incessante e utópica de ser a salvação, mesmo que para algumas
pessoas.
O filme possui uma fotografia com
nível de excelência. Filmado em preto e branco (com exceção do dramático
vermelho que aparece de forma impressionante em algumas partes), a obra revela
toda a genialidade de Steven Spielberg em um gênero que não é sua área.
Conhecido por brilhar em filmes fantásticos e fantasiosos, o diretor revela ao
mundo que sua capacidade ímpar também alcança filmes realistas e dramáticos.
A atuação de Neeson e Fiennes são
perfeitas. A cena em que Neeson, como representante da humanidade, pede
desculpas às vítimas do genocídio é de arrancar lágrimas. Do outro lado, acho
que até hoje não consegui inconscientemente perdoar Fiennes pela maldade do
personagem que ele aqui representa.
Contudo, se a obra é tecnicamente
tão excelente, porque a simples nota 7? O longo roteiro, excelentemente
fotografado e interpretado, possui um desenrolar lento, sem muitos percalços e
dotado de uma constante tristeza esfregada na cara do espectador, por meios de
cenas fortes e extremamente apelativas (essa é justamente a intenção do filme!
Não se trata de um ponto negativo). Portanto, embora seja uma mensagem
memorável e perfeitamente executada, não consigo incluí-la no seleto grupo dos
meus filmes favoritos (que são aqueles que possuem notas iguais ou maiores a
8). Sempre fui mais adepto aos filmes sugestivos e simbólicos, não conseguindo
endeusar uma obra que apenas visa chocar o público com uma apelativa verdade
escancarada. Mas não há como negar que “A lista de Schindler” pode ser
considerado como um dos maiores, senão o maior, filme sobre o sofrimento
humano. Uma ode ao amor à vida de Schindler, um cuspe ao instinto
autodestrutivo da humanidade.
Anterior
Próximo
