O cheiro do ralo
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Nota: 6
Ano: 2006
Ator 1: Selton Mello
Ator 2: Paula Braun
Diretor: Heitor Dhalia
Oscar: Não concorreu.
Se enquadra nas seguintes
categorias: Alternativo; Antropologia poética.
Comentário: O filme “O cheiro do
ralo” é um filme sobre o seguinte tema:
Obsessão. Todos nós estamos sujeitos a, mediante qualquer estímulo, ficarmos
obcecados com algo ou com alguém. Um desagradável encontro com uma barata no
apartamento gera uma obsessão por limpeza, um amor a primeira vista gera
obsessão por alguém que sequer conhecemos, o sucesso profissional gera obsessão
por trabalho e por aí vamos. Todavia, algumas obsessões do ser humano são tão
inusitadas que causam a curiosidade, o interesse e até mesmo o riso dos outros.
Lourenço (Selton Mello), é
definitivamente um homem obcecado! Aliás, é um homem obcecado por três coisas:
O cheiro insuportável do ralo de seu trabalho, seu pai que nunca conheceu e a
bunda da garçonete de um boteco vizinho. De fato, a história narra a vida deste
excêntrico protagonista, egoísta, egocêntrico e cheio de defeitos (inclusive o
defeito de ser completamente maluco), que trabalha em uma loja de penhores e,
durante o atendimento de seus clientes, evidencia os vários problemas de sua
personalidade e a grande influência de suas obsessões.
O roteiro começa de forma
confusa, e as situações que o personagem se encontra durante o seu dia a dia
começam a se tornar meio maçantes para o espectador. Todavia, da metade para o
final, quando o espectador se familiariza com o protagonista, a película começa
a ficar realmente divertida, virando uma comédia inusitada e intrigante
(obviamente, trata-se de uma comédia mais refinada, não chegando perto de um besteirol
e agradando apenas parcela do público).
Todavia, fica o leitor de
sobreaviso que, caso a excentricidade do personagem não lhe causa interesse,
cada cena do filme se tornará mais desnecessária e o resultado final será
totalmente reprovado.
A descrição das obsessões é feita
de forma minuciosa, de forma que diversas podem ser as interpretações da
conduta de Loureço e as consequências dos fatos rotineiros no seu estado
psíquico (é verdadeiro delírio para nós, psicólogos amadores de boteco).
A primeira, e mais evidente
obsessão, refere-se ao cheiro do ralo.Em primeiro momento o incomodo gerado em
Lourenço aparenta ser oriundo de um mau cheiro saindo daquele orifício.
Todavia, não é difícil perceber que este suposto fedor representa todo o asco
que o protagonista sente de si mesmo, já que ele se considera com uma
personalidade podre (“O cheiro não vem do ralo, o cheiro vem de mim”).
A obsessão pelo pai que não
conheceu representa toda a carência do protagonista, que sente-se um solitário,
incapaz de se aproximar e de se relacionar com os humanos a sua volta (na
verdade o personagem oscila entre o anseio por ter uma vida social normal e o
desejo de se afastar do resto da humanidade). As situações em que Lourenço tenta
comprar próteses humanas para montar um pai Frankstein são hilárias, o ponto
alto do filme.
E, por fim, a obsessão pela
bunda. Não se trata de uma bunda qualquer, ela é caracteriza como “A” bunda. Isso
porque esta parte do corpo é tratada como um personagem totalmente diferente do
que a sua respectiva dona (Paula Braun). Lourenço ama a bunda, mas ignora a sua
dona. Na minha opinião esta obsessão retrata justamente o motivo da
incapacidade deste perturbado em se relacionar com os demais. Ele é tão
egocêntrico, tão concentrado em seus próprios estímulos e sentimentos que
sequer consegue perceber a personagem de Paula Braun como um ser humano,
tornando seu traseiro em um simples objeto capaz de ser comercializado como os
demais bens de sua loja de penhores.
A rotina inusitada de uma loja de
penhores não deixa de ser bem retratada na trama. De fato , é curiossíssimo
observamos as reações das pessoas quando estas abrem mão de seus bens por
diversos motivos. Afinal, é o nosso carinho, a nossa memória, e o nosso desejo
que tornam um bem de baixo custo em algo de valor inestimável. Analisar a
reação das pessoas na aquisição ou na perda de itens de sua história reflete,
em última instância, uma diferente análise da natureza humana. É muito
interessante!
A atuação de Selton Mello é,
ainda, responsável por grande parte do mérito do filme. Como esta obra é totalmente
voltada para a mente do protagonista, era imprescindível que seu intérprete
fosse dotado de carisma suficiente para conseguir atrair o público até o minuto
final da obra; e o ator obtém inegável sucesso. Na verdade, Selton Mello interpreta
o mesmo personagem de suas outras obras. Ele é como Johnny Deep, existe um
personagem só adaptado para todas as obras. Jhonny Deep é o Jack Sparrow
pirata, Jack Sparrow chapeleiro maluco; Jack Sparrow dono de uma fábrica de
chocolates, e por aí vai. Selton Mello é ele mesmo versão nordestina, ele mesmo
vendedor de drogas, e, no presente filme, ele é ele mesmo lotado de obsessões
inusitadas. A grande diferença é que eu odeio o personagem do Jhonny Deep (e detesto
seus filmes, por consequência), mas adoro e não canso dos personagens do Selton
Mello.
O filme, portanto, é uma ótima
diversão para parcela do público e um filme tosco para a parcela restante. É,
para mim, cansativa em primeiro momento, mas geradora de diversas reflexões ao
final; diferente de qualquer outra obra já feita, vale seus cem minutos de
duração.
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