Brilho eterno de uma mente sem lembranças
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Nota: 8
Ano: 2004
Ator 1: Jim Carrey
Ator 2: Kate Winslet
Diretor: Michel Gondry
Oscar: Concorreu a 2 oscars e
levou um.
Se enquadra nas seguintes
categorias: O mundo é uma merda; Mela cueca; Escapista; Alternativo.
Comentário: Este é um filme de
romance para pirar e entreter por anos Freud, Jung e todos os seus seguidores! Por
se tratar de amor proibido de pais com filhos? Não! (ufa!) Mas por ser uma
análise corajosa e diferente do funcionamento da mente humana, revelando como suas
angústias inconscientes frequentemente se conflitam com suas vontades
conscientes. Para tornar tudo isso, que parece muito chato para a maioria, em
algo emocionante e bacana, o roteirista adicionou o tema que mais mexe com o
perturbado cérebro humano: Um relacionamento amoroso que não deu certo.
A história começa com a ficção de
que existe uma máquina que consegue apagar memórias específicas da mente humana
durante o sono, de modo que podemos escolher o que será deletado ou não da
nossa vida (embora esta máquina pareça super avançada, o filme não é
futurístico). Eis que uma jovem chamada Clementine (Kate Winslet), que é muito
doidona, resolveu apagar todas as memórias que possui de um ex-namorado seu
(Jim Carrey) e este, quando descobre, decide, por pura birra, também apagar
tudo o que se lembrava de seu antigo amor (é uma versão mais radical do ato de
deletar do facebook ou bloquear no msn).
O filme, portanto, retrata a
mente deste homem enquanto as memórias de seu relacionamento estão sendo
exterminadas. Todavia, conforme o rapaz vai revivendo suas experiências, ele
começa a perceber que, embora tenha gerado muitos sofrimentos no final, o
relacionamento com a garota foi, em grande parte, extremamente feliz,
proveitoso e que tanto as partes ruins e boas eram extremamente necessárias
para a completude de seu ser atual. Por isso, ele começa uma luta incessante
contra o sistema, fazendo de tudo para que seu passado amoroso não seja
deletado.
De fato, todos os humanos cometem
injustiças com o seu próprio passado, já que nossa memória seletiva determina arbitrariamente
o que será por nós esquecido e o que será lembrado até o momento da nossa
morte. Não sabemos o porque, mas insistimos em lembrarmos da nossa infância
como uma vida recheada apenas de alegrias e esquecemos de todos os sofrimentos
que já vivemos quando pequenos (as pessoas mais traumatizadas fazem justamente
o contrário). Nos relacionamentos amorosos, então, somos inacreditáveis:
Qualquer relacionamento que não acabou bem não possui uma memória positiva guardada,
tudo foram trevas, de modo que frequentemente nos perguntamos como conseguimos
namorar aquela besta quadrada. Ademais, no início da paixão, qualquer coisa é
perdoada e tudo são flores, para, posteriormente, com a redução do fogo da
paixão, aquele suposto perdão tornar-se de vidro, e aquilo que não nos
incomodava se tornar insuportável.
O roteiro é inversamente ordenado
pela desconstrução de um relacionamento, retratando o namoro como algo
insuportável (o fim) e caminhando para se tornar algo apaixonante (o começo),
de modo que não há quem não torça para que os protagonistas fiquem junto no final.
A crise de identidade daquele que
perde suas memórias é natural, porque só somos quem somos pelo nosso passado,
perder a memória de um relacionamento anterior não significa torna-se mais
feliz ou mais triste, mas significa perder uma parte de você mesmo.
Jim Carrey, neste filme, decretou
o fim de suas atuações caricatas em comédia (que muitos elogiavam e outros não
gostavam) para consolidar seu novo campo de atuação competente, o drama (que,
da mesma forma, muitos elogiam – me incluo nessa - mas outros não gostam). Kate
Winslet está simplesmente brilhante, como sempre está, reforçando a minha tese
de que é a melhor atriz de sua geração (e tem pessoas que só lembram dela por
Titanic).
Assim, o filme revela que a
máquina de apagar memórias não atinge sua finalidade de tornar uma pessoa mais
feliz, porque ela não consegue atingir o inconsciente do ser humano, que ainda
será formado por todos os seus traumas e insucessos. Eis o motivo do título
gigantesco da película: mesmo sem a lembrança, não há como ignorar o brilho
eterno de um relacionamento marcante. Fica, portanto, a comprovação de que o
importante, na maioria das vezes, não é o destino para qual caminhamos, mas, em
verdade, a própria jornada.
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