Diários de motocicleta
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Nota: 6
Ano: 2004
Ator 1: Gael Garcia Bernal
Ator 2: Rodrigo de la Serna
Diretor: Walter Salles
Oscar: Concorreu a duas
estatuetas, ganhando uma.
Se enquadra nas seguintes
categorias: Mão na consciência; Baseado em fatos reais;
Relacionado à história; Escapista; Alternativo; Antropologia poética.
Comentário: A transformação do
menino em adulto é acontecimento marcante que gera interesse à toda raça humana.
É verdade que muitos deixam sua infância de forma gradativa, sem qualquer
alteração repentina; todavia, é sabido que muitas vezes um acontecimento faz
com que aquele menino sonhador e ingênuo desperte repentinamente para tornar-se
senhor de sua vida, dotado de poder para transformar o seu mundo e o mundo das
pessoas ao seu redor. Em Esparta, por exemplo, a transformação do menino em
homem era forçada por um perído em que ele era expulso da civilização por um
tempo e era obrigado a aprender a sobreviver por conta própria em um ambiente
selvagem. Hoje, de forma instintiva, muitos jovens acabam realizando uma espécie
de transformação semelhante, normalmente ligada à uma viagem pelo mundo
apelidada hoje como “mochilão” (obviamente existem muitos adultos que também
realizam estes mochilões, mas o objetivo é o mesmo: tornar-se um ser mais
consciente do mundo em que vivemos, sem esquecer de satisfazer o anseio próprio
de aventura e diversão).
A trama, portanto, narra uma
história comum: o mochilão de dois amigos que começam a aventura como dois adolescentes
querendo diversão e terminam como dois jovens homens querendo mudar o próprio
mundo. O que torna a história diferenciada é que um destes homens não mudou
apenas o seu próprio mundo, mas foi responsável por mudanças significativas de
toda a América Latina, quiçá, do planeta Terra; estamos falando de Ernesto Che
Guevara (Gael Garcia Bernal).
Merecidamente, este personagem
histórico é objeto de adoração de jovens sonhadores desejosos por uma mudança
no espírito de solidariedade humana e, por isso todos os acontecimentos
relacionados a ele acabam alcançando proporções maiores do que naturalmente
ocorreriam (é só observar o paradoxal fato de existir um imenso consumo de
camisetas que se utilizam da imagem deste homem que repudiava o consumismo) Na
minha opinião, a repercussão e a admiração sobre esse filme segue a mesma
regra, alcançando maiores proporções do que naturalmente alcançaria se o “Che”
não estivesse envolvido.
Não que o filme seja ruim, longe
disso, mas é um filme lento, calmo, sem grandes realizações cinematográficas,
inclusive roteirísticas. O clímax do filme consiste no interessantíssimo encontro
destes jovens viajantes com pessoas vítimas da lepra e seus médicos locais, que
tratavam os doentes com distância e sem a necessária proximidade afetuosa, e
posteriormente recebem uma bela lição de humanidade do protagonista. Embora
seja um acontecimento digno de palmas, deve-se admitir que o roteiro é
insuficiente para tornar o filme em uma obra lendária ou, pelo menos, capaz de
emocionar a maioria do público.
Gael Garcia Bernal faz uma
interpretação competente, mas não consigo afirmar que admiro ou desgosto de sua
capacidade de atuação. Acho que a admiração global pelo ator foi um fato muito
curioso: Meteoricamente ele alcançou o status de ator mundial de primeira linha,
mas, depois de um curto período de tempo, deixou de aparecer com frequência em
papéis de destaque do cinema. Acredito que, caso ele não faça algum filme de
sucesso nos próximos anos, ele correrá o risco de cair no esquecimento.
Ainda, é possível destacar a boa
fotografia do filme e a trilha sonora cativante, que acabam atribuindo ao filme
médio um ar de filme cult de qualidade diferenciada.
Portanto, trata-se de um filme
médio, que irá cansar os que não admiram filmes “parados”, mas que não deixará
de satisfazer historiadores e admiradores da figura de Guevara, um sonhador que
doou sua vida por uma ideologia e tornou-se um símbolo de muitos, desde
verdadeiros bem-intencionados até a grandes hipócritas da atualidade.
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