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Janela indiscreta


Nota: 6
Ano: 1954                
Ator 1: James Stewart
Ator 2: Grace Kelly
Diretor: Alfred Hitchcock
Oscar: Concorreu a quatro oscars e não ganhou nenhum
Se enquadra nas seguintes categorias: Escapista; Alternativo; Policial.
Comentário: De todos os diretores das obras que eu tenho o topete de analisar, Hitchcock é, de longe, o mais injustiçado pelo critério para atribuição de notas.
De fato, meu principal critério para qualificar um filme é tentar abstrair qual foi o ano de sua produção e me concentrar na seguinte pergunta: “Se este filme fosse feito hoje, eu acharia uma boa obra?”. Claro que valorizo a mensagem que tentava se passar à época da produção, isto é, não ignoro o contexto histórico da mensagem nele transmitida, mas tento ignorar que naquela época os textos eram escritos de forma distinta, que os efeitos especiais estavam ainda engatinhando, ou que a forma de atuar possuía padrão distinto da atualidade (bem mais afetada, por sinal). Isso porque meus protótipos de resenha visam recomendar e alcançar a expectativa daquele que hoje experimentará pela primeira vez a obra.
O expectator atual quer ver roteiros que sejam capazes de o cativar, personagens que hoje o convença da ilusão retratada no filme, situações que consigam no fazê-lo se emocionar de fato, e não achar que se emocionaria se tivesse visto o filme em tempo remoto. Não são poucos os filmes antigos que possuíam níveis de excelência para a época, mas que hoje não envolvem o público contemporâneo, que pode, inclusive, considerá-lo maçante. Dando um exemplo mais palpável: Nos anos 50, um filme de terror em que o monstro nada mais era do que um homem com uma fantasia que dava para se enxergar o zíper possuía a capacidade de estarrecer o público, mas na atualidade, só é capaz de provocar risos, já que vivenciamos experiências cinematográficas muito mais estarrecedoras e semelhantes ao real. Se tais imperfeições são insuficientes para retirar o potencial do filme, nao vejo problemas em considerá-lo uma boa obra, mas não concordo que tais deficiências são irrelevantes e que o filme teria o mesmo efeito se ele fosse produzido nos moldes contemporâneos.
É claro que existem pessoas com critérios totalmente distintos, e possuem no mais alto conceito filmes de vanguarda que, com suas técnicas então inovadoras, foram responsáveis pelo desenvolvimento da sétima arte e, para elas, tais lendárias obras guardam o mais alto lugar nos critérios de avaliação. Para estas, é natural que a discordância com minha nota seja imediata.
É por isso que Hitchcock é o grande injustiçado desse blog. Suas obras foram, cada uma em seu momento, o símbolo de excelência em todos os aspectos. Com roteiros inusitados e envolventes, técnicas de filmagem nunca antes imaginadas e efeitos especiais ousados, os filmes galgam, para aqueles que consideram tais valores em suas avaliações, notas que facilmente ultrapassariam o 8. Porém, tais obras envelheceram e hoje não possuem mais todo o potencial de diversão de outrora. É claro que algumas delas são ainda capazes de envolver e cativar o público, não podendo ser consideradas como filmes completamente “descartáveis”; contudo, perto de obras mais modernas, a potencialidade de agradar um novo público é consideravelmente menor.
Janela indiscreta pode, nessa ordem de ideias, ser a maior das injustiças, porque, considerando os critérios que já afirmei que ignoro, poderia ser considerada a melhor obra que Hitchcock fez em toda sua carreira.
O filme conta a história de um jornalista (James Stewart) que se encontra machucado e impossibilitado de se locomover. Acostumado a grandes aventuras, ele se sente entediado por estar enclausurado em seu quarto, e resolve bisbillhotar a vida de seus vizinhos com um binóculo para se distrair. Porém, analisando os comportamentos de seus vizinhos, ele começa a estranhar a conduta de um relojoeiro que habita em frente à sua moradia, e inicia uma espécie de passatempo que consiste em imaginar que ele tenha assassinado sua mulher. Contudo, todas as suposições despretensiosas do protagonista começam a encaixar com muita perfeição à realidade dos fatos, e a brincadeira fica séria quando o protagonista se convence de que realmente houve um assassinato.
A obra, portanto, possui três principais aspectos. O primeiro, e principal deles, é a questão do suposto assassinato supracitado. As conjecturas do protagonista vão ganhando novos elementos a cada momento, e o próprio público se envolve na dúvida se o protagonista está delirando ou se ele está absolutamente correto. Para aumentar ainda este envolvimento da plateia, o diretor do filme usa técnicas cinematográficas em que permite a alternância do papel do público como alguém que efetivamente participa da obra (isto é, a câmera possui a mesma visão que o protagonista, como se o público enxergasse o que o protagonista enxerga), que apenas observa as reações do protagonista (como se fosse uma segunda pessoa ao seu lado) ou, ainda, um terceiro (posição geralmente adota pelo cinema em geral), que observa as reações do protagonista ao mesmo tempo que evidencia o fato ocorrendo (não sei se consegui explicar bem o que acontece, mas é uma técnica muito interessante de se ver na prática).
Outro aspecto é o relacionamento amoroso que existe entre o protagonista e uma mulher (Grace Kelly). A garota é uma bela jovem que possui milhares de pretendentes aos seus pés, mas só tem interesse no protagonista. Este, por sua vez, não possui qualquer atração por ela, por vê-la como uma pessoa fútil e idêntica a toda sociedade burguesa que ele tanto desgosta. Ela, no intuito de agradá-lo, realiza uma reavaliação sobre sua personalidade, para tentar descobrir se possui características distintas para agradar o seu amado (até mesmo se envolvendo na fantasiosa história de que houve um assassinato, mesmo ela considerando que isso se trata de uma grande besteira). Há quem reprove este tipo de comportamento, de alterar o seu “jeito de ser” para agradar alguém, mas entendo que uma mudança natural que não resulte em infelicidade de uma das partes é válida, e perfeitamente possível para que um casal consiga atingir a felicidade amorosa.
Por fim, o aspecto “menos importante” do filme (coloco entre aspas porque é o aspecto que sempre me cativa mais): há toda a história da vizinhança que representa o pano de fundo da trama principal. A bailarina que é cortejada por muitos homens, a mulher que finge ter companhia para o jantar mas é sozinha, entre muitas outras boas descrições visuais que fazem o expectador ter vontade de conhecer um pouco mais daquela rotina.
Mas, não posso nunca deixar de ressalvar que a obra possui uma atuação que não cativa muito o público moderno, e que os diálogos e os acontecimentos vão ocorrêndo de forma gradual e lenta, de modo que o filme pode ser considerado maçante por grande parte do seu público. Por fim, a solução do mistério, que consiste no clímax da obra, não é dramatizada em toda a sua potencialidade, deixando a desejar perante tantas outras revelações que fizeram história no cinema. É talvez uma das melhores peças para amantes de filmes antigos, mas apenas uma obra média para quem quer simplesmente ver uma boa película no domingo a noite.