A história oficial
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Nota: 6
Ano: 1985
Ator 1: Norma Aleandro
Ator 2: Héctor Alterio
Diretor: Luiz Puenzo
Oscar: Concorreu a dois oscars e
ganhou um.
Se enquadra nas seguintes
categorias: O mundo é uma merda; Mão na consciência; Relacionado à história;
Alternativo.
Comentário: “A história oficial”
foi considerada por muito tempo o melhor filme argentino já feito (ainda é esta
a opinião de muitas pessoas). Embora o roteiro seja forte, memorável e
extremamente valoroso para retratar a história argentina, acredito que alguns
filmes como “Os segredos dos seus olhos”, “Um conto chinês” e “Kamchatka” foram
capazes de criarem roteiros com clímax e recursos cinematográficos de maior
alcance. Contudo, “A história oficial” ainda garante o título de ser a maior
afirmação política argentina realizada por meio da sétima arte.
“O pior cego é aquele que não
quer ver”, eis um dos chavões mais sábios da humanidade que sintetiza com
precisão o meu sentimento ao assistir esse filme. De fato, o roteiro conta o
abrir dos olhos de uma suposta inocente, que ignorava as atrocidades vividas
pelo povo argentino no período ditatorial.
A protagonista é Alicia (a
sensacional Norma Aleandro, em atuação memorável), uma professora de história
casada com um dirigente de uma grande corporação (Héctor Altério), que
enriqueceu e prosperou durante o período ditatorial. Com o crescimento dos
movimentos de protesto e o declínio do regime ditatorial, Alicia começa a ter
contato com todos os horrores vividos pelo povo argentino nos últimos tempos, e
finalmente começa a perceber a parcela de culpa de seu marido pela ocorrência
destes horrores (é importante observar que ela identifica a parcela de culpa de
seu marido, mas não identifica a sua própria). A decepção e o horror da
protagonista chega a seu ápice quando ela começa a desconfiar que sua filha
adotiva, quando ainda era um bebê, tenha sido retirada a força de uma militante
presa e entregue para seu marido (prática comum no regime ditatorial
argentino).
Em primeiro momento, o sentimento
do espectador é de empatia com a protagonista. Afinal, é louvável a sua revolta
perante a descoberta da podridão do sistema, bem como o desejo pela verdade e o
justo. Mas em um segundo momento, fica a dúvida na mente de quem assiste a
película: A protagonista era uma professora de história, conhecedora de todos
os acontecimentos políticos mundiais anteriores, inclusive os horrores
realizados por governos autoritários de outrora, que aprendeu e acreditou nas
mentiras dos líderes estatais e as utilizou para doutrinar alunos em sala de
aula (a cena em que os alunos confrontam seus ensinamentos é ótima!) . Não
bastando, Alicia nunca questinou profundamente os motivos da prosperidade
súbita de seu marido, a forma que ele conseguiu adotar sua filha (que ela
deliberadamente optou por ignorar), entre diversas outras incongruências que
convenientemente nunca foram objeto de curiosidade. A própria personagem, ao
final, se martiriza e se pergunta qual é a profundidade de sua culpa pelo
ocorrido.
O filme, portanto, é uma
afirmativa de todo o povo argentino, visando refletir a culpa e a fraqueza de
cada parcela da sociedade pelo vergonhoso período ditatorial, fugindo da
covarde atitude de atribuir toda a responsabilidade pelo ocorrido aos seus
líderes.
Portanto, é inegável o valor
político e a qualidade da ideia central da trama, que garantem ao filme o status de eterno clássico argentino.
Todavia, deve-se ressaltar que o brilhante cinema deste país, nos anos 80,
ainda possuía diversos pontos a serem melhorados para que seus roteiros
pudessem alcançar todo o seu potencial sucesso cinematográfico. Embora a
história seja valorosa e a atuação seja competente, é correto afirmar que o
filme é denso, carente de maiores elementos capazes de cativar o público. A
fotografia não é atraente, o clímax é limitado e, ao final, são poucas as
pessoas que teriam vontade de ver o filme uma segunda vez.
Em suma, é um bom filme para
aqueles que desejam assistir algo com substância política e histórica, um
péssimo filme para quem deseja apenas se divertir, e apenas um embrião de todo
o potencial cinematográfico argentino, que hoje se encontra entre os melhores
do mundo.
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