Sociedade dos poetas mortos
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Nota: 8
Ano: 1989
Ator 1: Robert Sean Leonard
Ator 2: Robin Williams
Diretor: Peter Weir
Oscar: Indicado para quatro
oscars, ganhando um.
Se enquadra nas seguintes categorias: O mundo é uma merda;
Mão na consciência; Frases de efeito; Escapista; Antropologia poética.
Comentário: O filme “sociedade
dos poetas mortos” é um grito silencioso; um sofrimento tão reprimido que, por
muitas vezes, faz com que o telespectador não perceba o quão triste é a
película.
De fato, o roteiro retrata mais
um ano letivo em uma tradicional escola que objetiva formar líderes do novo
mundo, isto é, aquela típica escola com rigidez excessiva e foco impositivo no
molde de filhos dos poderosos para que, no futuro, esta nova geração tome o
lugar de seus pais e seja a responsável pelo comando da sociedade.
Embora os líderes mundiais
moldados desta forma representem para o público o símbolo de sucesso,
perseverança e seriedade tradicional, não há como negar que o procedimento para
criação destes líderes é triste, traumatizante e, no mínimo, questionável.
Em verdade, esta vida de esforço
rumo à liderança, cheia de privações, não é, no caso, opção inicial de um jovem
ambicioso, mas uma imposição de seus pais, que tentam cegar todas as
possibilidades que o mundo proporciona e exigir que aquele caminho seja o
traçado por seu filho. A revolta do filho com a jornada espinhosa é vista por
seus genitores como símbolo de fraqueza e imaturidade, que pode e deve ser
reprimida pela força autoritária do pai e do colégio tradicional.
É neste contexto que o filme se
inicia, com jovens tentando timidamente escapar das imposições de seu meio e o “sistema”
reforçando a necessidade de reprimir qualquer resistência. Eis que um novo
professor de literatura (Robin Willians), oriundo da própria graduação do
colégio repressivo, aparece para fortalecer o sentimento de individualidade e
criatividade dos jovens, o que naturalmente resultaria em uma crescente
animosidade entre os envolvidos.
A escolha de Robin Willians para
o papel é perfeita (Dustin Hoffman quis assumir esse papel, mas acho que a
escolha por Willians foi acertada). Só ele consegue ser verdadeiramente
inspirador, dotado de brilho e esperança, mas ao mesmo tempo ser o símbolo da
triste contradição de um vencido (vocês já reparam que dificilmente Willians
obtém um final verdadeiramente feliz para ele próprio nos filmes?). Afinal,
embora ele seja visto como símbolo pelos alunos do filme, é evidente que ele
possui um remorso eterno por ser mais um dos “dobrados” pela educação rígida.
Em primeiro momento, vê-se o professor como um rebelde, que sobreviveu às
opressões com sua poesia forte e intrasponível e tomou às rédeas da sua vida.
Mas, com o desenrolar da trama, observa-se que este não obteve a liberdade que
sempre desejou; é um personagem triste, consciente de que sua juventude fora
reprimida, e que busca que seus alunos obtenham o sentimento de satisfação e
liberdade que ele não atingiu em sua plenitude.
(Se você não viu o filme, pare de
ler aqui! Vou falar sobre o fim dele a partir de agora) Com efeito, não é uma
batalha fácil para jovens em formação e, por isso, a maioria esmagadora destes
acabam se enquadrando na demanda apresentada e provavelmente se tornarão os
homens de sucessos sonhados por seus pais (muitos até mesmo se sentirão felizes
e gratos por sua experiência de vida). Os personagens de Ethan Hawke, Josh
Charles, James Waterson e Jamie Kennedy se dividirão entre aqueles que
lamentarão terem cedido às pretensões de seus pais e os que serão gratos, mas
todos terão sempre a consciência de que não tiveram a oportunidade de escolher
o próprio estilo de vida. Mesmo o personagem de Gale Hansen (o divertido Nuwanda), embora expulso, provavelmente será
obrigado a seguir o estilo de vida escolhido por seu pai em outro colégio, e
será eternamente amargurado com o que lhe foi imposto e ele não soube escapar.
Apenas o personagem de Robert
Sean Leonard realmente consegue se impor perante seu pai (Kurtwood Smith em
mais uma atuação competente) e tomar as rédeas de sua vida. Pena que a única
solução evidenciada no filme para que os jovens sonhadores definam seu próprio
futuro seja tão drástica e infeliz (a escolha de “Sonhos de uma noite de verão”
como a peça a ser interpretada por ele é simbólica, já que esta obra de
Shakespeare também tem como pano de fundo a imposição paterna sobre os sonhos
de sua prole).
A grande falha no personagem de
Willians,no meu ponto de vista, é que esta problemática não tem como solução a
necessidade de mudança no comportamento dos jovens oprimidos. A alteração deveria
ser feita na conduta dos opressores, isto é, os pais, que deveriam entender que
desejar o sucesso de seu filho em uma conduta por demais ativa pode significar
uma satisfação superficial e uma infelicidade eterna; não é sem motivos que
tantos personagens de sucesso na história mundial tiveram problemas de
relacionamentos com seus genitores. A conduta de inspirar a revolta nos jovens
e fugir de qualquer confronto pessoal com o sistema e especialmente com os
pais, me faz ter a impressão de que Willians fora novamente incapaz de se
libertar de suas correntes. Não seria errado dizer que ele, um homem feito, que
acende a chama da liberdade em um garoto, mas é incapaz de falar grosso com o
pai deste, teve uma atitude covarde, e mais uma vez terá que conviver com sua
amargura pelo resto da vida. É um eterno acorrentado.
É irônico, mas aquele que grita o
filme inteiro o lema “Carpe diem” é
aquele que menos aproveita seus anos, pois sofre com sua ausência de forças e
sua eterna submissão. Felizmente, com as conquistas obtidas com os jovens dos
anos 60, 70 e 80, esta relação pai e filho vem mudando, e o conceito de sucesso
está cada vez mais se aproximando do sentimento de felicidade, amor e
completude. Carpe diem meus amigos.
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