A vila
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Nota: 5
Ano: 2004
Ator 1: Joaquin Phoenix
Ator 2: Bryce Dallas Howard
Diretor: M. Night Shyamalan
Oscar: Indicado para um oscar,
não sendo premiado.
Se enquadra nas seguintes categorias: Mão na consciência; O
quê????; Suspense psicológico; Frases de efeito; Escapista.
Comentário: Confesso que a nota
que dei para o filme é rigorosa demais se você encará-lo como uma reflexão ao
comportamento paterno e seu dilema na sociedade moderna, e não como uma simples
obra de suspense. O problema é que o filme se transveste do gênero suspense do
começo ao fim, de modo que é complicado afirmar que ele é bom por possuir uma
ótima reflexão e analogia com os dilemas de como criar um filho no mundo
contemporâneo, se ao mesmo tempo ele é um filme de suspense bem
água-com-açucar. De fato, se a obra abandonasse desde o começo qualquer
tentativa de fazer mistério e de dar sustos, e focasse sua atenção nos
conflitos psicológicos dos personagens, a obra alcançaria um sucesso
cinematográfico muito maior.
A película conta a história de
uma vila aparentemente situada no século XIX, comandada por um grupo de chefes
de família e habitada por eles e suas respectivas proles. O povo desta vila
encontra-se isolado do restante do mundo, por ser constantemente assombrado por
criaturas horrendas de aspecto mitológico que habitam a região e impedem o
contato com o restante da humanidade. Ao mesmo tempo, alguns eventos exibidos
fora deste cenário revelam que o filme se passa no século XXI, e que apenas a
vila mantém seu aspecto medieval, justamente pela ausência de contato com o
resto do mundo.
Todavia, este grupo de líderes
está envelhecendo e seus filhos, adolescentes quase adultos, encontram-se em
vias de assumir o papel de liderança. Enquanto os pais já se encontram com a
ideia fixa de permanecerem isolados para a sobrevivência, os novos líderes
estão divididos entre aqueles que querem manter a segurança e permanecer no
local e aqueles que querem desafiar os monstros que os circundam e tentar
escapar daquele mundo. Dentre estes rebeldes, temos os protagonistas do filme:
Ivy (Bryce Dallas Howard), jovem carismática que é adorada por todos, e Lucius
(Joaquin Phoenix), um rapaz com sérios problemas de relacionamento mas que demonstra
uma paixão incomensurável pelo pouco do mundo que lhe interessa.
A fotografia é de boa qualidade,
assim como a trilha sonora (a típica sombriedade esperada em filmes de
suspense). Todavia, o grande problema do filme está na própria pretensão de ser
um filme de suspense. De fato, a história já parte de um suposto temor a monstros
da floresta, que não deveria repercutir nenhum aspecto de seriedade ao público.
Não bastasse, estes supostos monstros não são muito bem feitos, de modo que as
tentativas constantes de assustar as pessoas é, em sua grande maioria, um
fracasso. Por fim, o suposto mistério é facilmente desvendado pelo
telespectador na primeira metade do filme, de modo que todo o suspense
revela-se sem sentido, tornando o filme, para muitos, enfadonho.
Muitos dirão: Mas o principal do
filme não é esse suposto suspense! O que é válido é a mensagem que é passada de
modo sutil e que nos leva para a interessante reflexão final da obra. É
verdade, mas não consigo aceitar que o filme fique uma hora e meia
interpretando um suspense bobo, com sustos risíveis, para, em dezoito minutos,
trazer uma proposta instigante. Entendo que, caso o pretenso mistério fosse
revelado logo no começo da obra, os diálogos havidos entre os personagens e o
tema proposto poderiam ser alcançado com uma profundidade muito maior. A
tentativa de alongar este mistério até o fim, com uma “revelação bombástica”,
faz com que a obra que poderia ser boa fique meio boba, meio dispensável.
(Se não viu o filme, pare de ler
aqui) A revelação final de que os monstros na verdade são os próprios líderes
da vila, que incutiram o medo em seus filhos por meio de lendas, para evitar que
estes tivessem contato com o mundo contemporâneo, vistos por seus genitores
como uma sociedade doentia capaz apenas de trazer infelicidade e desgraça para
todos, leva-nos a uma reflexão interessante: Até que ponto os pais devem
proteger a criança do mundo que as rodeia? Obviamente o filme revela um
exagero, mas não é incomum vermos pais colocarem seus filhos em uma bolha,
desviando-os e protegendo-os dos problemas da sociedade moderna, mimando-os o
máximo possível e, sem querer, tornando-os frágeis e despreparados. Qual deve
ser a gradação entre proteger e preparar para a vida? A resposta é tortuosa e
nunca será absoluta, mas o filme é uma mostra inequívoca do excesso de
proteção. Tal alegoria possibilita que os atuais pais reflitam sobre seus
métodos de criação e as formas de torná-los mais positivos e menos impositivos.
Concluindo, é um filme com ideias
inovadoras e que poderia alcançar um sucesso maior, mas que infelizmente se
limitou quando buscou se adaptar a um gênero completamente descabido. Ainda é
proveitoso para muitos, mas há filmes melhores, tanto no campo do suspense,
quanto no campo de reflexões sobre o comportamento humano.
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