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Um conto chinês


Nota: 7
Ano: 2011
Ator 1: Ricardo Darín
Ator 2: Ignacio Huang
Diretor: Sebastián Borensztein
Oscar: Nenhuma indicação
Também se enquadra nas seguintes categorias: Alternativo; Antropologia poética;
Comentário: “Um conto chinês” é aquele raro e prazeroso filme que, sem grandes agitações, sem grandes efeitos especiais e sem qualquer dramatização generalizada, consegue alcançar o especial patamar de ser um filme recomendado para todos. Não bastando, o filme é inspirador e produzirá na particularidade de cada indivíduo reflexões sobre o modo de encarar a vida.
Com efeito, é um filme-tese, isto é, o filme trás como propósito a reflexão acerca de um questionamento filosófico (“existe sentido na vida e em suas intempéries?”) e sugere a sua própria solução. Com essa descrição eu tive a capacidade de fazer algo muito legal parecer chato não é? Mas prometo que a forma leve e tênue que tal reflexão é apresentada, por meio de um caso concreto, personagens carismáticos e uma história envolvente, faz com que tudo seja proveitoso e a trama se mostra a mistura perfeita de passatempo ideal com lição de vida valorosa.
De fato, tudo começa com uma vaca caindo do céu (hein?) e atingindo uma mulher em cheio (Não, o filme não é abstrato e sem qualquer conexão com a realidade. Na verdade, este fato realmente ocorreu na vida real e isto será provado por uma reprodução ao final do filme de uma notícia jornalística da época do fato, a qual, inclusive, inspirou a produção do filme). Mas enfim, qual seria o sentido desta tragicomédia da vida? Qual é o motivo de nascermos, crescermos, nos educarmos para, inexplicavelmente, sermos atingidos por uma vaca ou por qualquer outra tragédia sem explicação? Em menores proporções (e sem envolver bovinos), fazemos essa espécie de questionamentos todos os dias: Qual o sentido de nosso esforço e de nosso envolvimento com o mundo?
Do outro lado, um argentino (Ricardo Darín) vive a sua amarga e rotineira vida sem sobressaltos, afastando todos aqueles que se aproximam de sua pessoa, cansado do comportamento dos demais humanos e inconformado pela falta de razão para sua vivência. Eis que surge um chinês (Ignacio) que, sem falar espanhol e sem possuir um tostão, precisa da ajuda deste rabugento para encontrar um familiar seu que se mudou para Buenos Aires.
O preenchimento da vida deste argentino com os cuidados indesejados que ele deve dispender com o chinês com cara de cão abandonado geram um desconforto ainda maior para o velho rabugento, acostumado com sua independência social. Todavia, os aborrecimentos do argentino revelam-se verdadeira comédia para o telespectador, que vibra e se apaixona pela inusitada relação estabelecida entre ele e o pobre chinês.
Novamente, Ricardo Darín garante a qualidade da obra. Sua atuação está absolutamente fantástica! As pequenas e leves demonstrações de impaciência e as repentinas explosões do protagonista, todas atribuídas à capacidade de atuação de Darin, são essenciais para que nos identifiquemos com as dificuldades relatadas na trama (afinal, o mau-humor é característica constante da grande maioria dos homens acorrentados à rotina de trabalho e pouco prazer). Todavia, Ignacio Huang também merece aplausos pela sua contribuição! Até agora me pergunto como eles conseguiram encontrar um chinês com uma carinha de coitado tão cativante como aquela. Este ator será capaz de fazer você se emocionar com seu sofrimento sem sequer entender uma palavra do que ele fala (e o filme não traduz).
Quanto a minha impressão pessoal, revelo que não sou um crente na existência de um destino, de um desígnio maior, carma, ou etc., mas acredito que a forma como encaramos os fatos horríveis do cotidiano (mesmo os mais incompreensíveis) são essenciais para determinar o alcance de nossos feitos ao longo dos anos, e, consequentemente, uma atitude positiva sempre aumentará às chances de produzir felicidade àquele que é vítima de algumas vicissitudes.
A lição que eu tiro, resumindo, é que, quando uma vaca cair do céu e abalar algo que me é importante, o sofrimento será válido, mas a perseverança permanecerá. E você? Qual a sua conclusão? Não perca a oportunidade de ver esta obra especial! Se você não quiser filosofar, garanto que pelo menos terá sua diversão assegurada.