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Abril despedaçado

Nota: 6
Ano: 2001
Ator 1: Ravi Lacerda
Ator 2: Rodrigo Santoro
Diretor: Walter Salles
Oscar: Não concorreu
Também se enquadra nas seguintes categorias: O mundo é uma merda, Escapista, Alternativo, Vendetta.
Comentário: "Abril despedaçado" é um ótimo exemplar do sertanejo brasileiro, temática tão rica que poderia ser mais aproveitada pelos cineastas de grande porte de nossa pátria. De fato, a vida simples e sofrida do povo do sertão é palco de muitas das melhores obras literárias brasileiras e esta rica cultura deveria ser emprestada para as telinhas de forma mais satisfatória.
O filme em exame pode ser definido como uma obra passivamente triste, recheada de um naturalismo que daria inveja a Aluísio de Azevedo. De fato, a história relata o convívio conflituoso de duas famílias sertanejas que vivem em um curioso ciclo de ódio, no qual, por meio de um código pautado na honra, na religiosidade e na ignorância, os integrantes das famílias assassinam-se de tempos e tempos. Funciona da seguinte maneira: O integrante de uma família mata o da outra e fica marcado para ser assassinado por um primo ou irmão do morto. Entretanto, o novo assassinato só poderá ocorrer após um período de luto, que durará enquanto não secar o sangue na camisa do assassinado.
O próximo da fila será Tonho (Rodrigo Santoro), que, temendo seu pai, ingressa no ciclo de ódio que amaldiçoa as famílias. O filme relata então o último período de paz de Tonho, o período de luto supracitado. Tonho não entende o motivo do ciclo de ódio, percebendo a irracionalidade destrutiva da verdadeira guerra que participa. Mas o temor, a ignorância, a religiosidade e todos os outros fatores típicos da vida no sertão impedem que Tonho seja capaz de questionar enfaticamente o sistema, restando apenas reprimir sua revolta.
De outro lado, o filme retrata a história de Pacu (Ravi Lacerda), o jovem irmão de Tonho que, sem saber ler, descobre a magia do mundo literário por meio de figuras. A imaginação de Pacu, que sonha conhecer o mar, a sereia, entre outros elementos, é colocada de forma graciosa, poética, sendo verdadeiro contraponto à realidade abissal de seu irmão, a qual, um dia, será a realidade de Pacu também. A poesia do irmão que inconscientemente tenta fugir do destino de seu irmão é interessantíssima.
A produção inteira é voltada a fazer um filme poeticamente triste. A fotografia e as cores são frias, desanimadoras e perfeitamente adequadas ao roteiro. Rodrigo Santoro possui, novamente, uma atuação admirável, com sentimentos profundos sendo retratados com poucos sinais ou com uma leve expressão (pena que os americanos insistem em utilizá-lo em papéis bem bobinhos). Ravi Lacerda, apesar de ser um jovem promissor, parece não se encaixar na cena retratada, mas acredito que isto foi intencional, já que Ravi é o símbolo do escapismo que tenta sair do buraco negro da tristeza naturalista.
O filme, elogiável exemplar brasileiro, não consegue manter o brilho de seu clímax por muito tempo. Grande parte do filme é lenta, podendo a película ser classificada pelos mais impacientes como maçante. Seria possível fazer o filme mais cativante e com maior potencial para prender a atenção do telespectador? Provavelmente, mas parte da magia melancólica seria perdida. Fato é que o filme é uma obra de valor, que será apreciada por aqueles que gostam da temática intimista sertaneja brasileira, mas que não agradará aqueles que preferem filmes mais agitados e com maior produção, como os blockbusters americanos.