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Uma noite em 67




Nota: 7

Ano: 2010
Diretor: Renato Terra/ Ricardo Calil
Oscar: Não concorreu.
Também se enquadra nas seguintes categorias: Mão na consciência; Vale pela trilha sonora; Relacionado à história; Escapista; Musical.
Comentário: “Prepare seu coração...Pras coisas que eu vou contar...” Existem dois grandes tipos de documentários: Aqueles que procuram denunciar um problema atual da sociedade e aqueles que descrevem um fato histórico marcante, normalmente relacionado a guerras ou conflitos. 
Este documentário, embora histórico, não fala sobre eventos catastróficos, mas versa sobre um dos eventos culturais mais legais que o Brasil já teve; evento este que infelizmente não existe na atualidade e me dá muita vontade de ter nascido décadas antes só para ter presenciado tal espetáculo. Estou falando da era dos festivais de música popular brasileira. Os festivais aconteceram entre 1965 e 1985, mas fizeram sucesso mesmo na década de 60 e 70. Em 1980 ele já caminhava para o seu final. 
Basicamente era um concurso entre músicas de MPB que disputavam perante um júri qual era a melhor canção do ano, sendo televisionada por Record ou Globo ou a extinta Excelsior. Os intérpretes das músicas eram alguns cantores jovens que hoje não fazem sucesso: Uns tais desconhecidos como Roberto Carlos, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, Elis Regina, Raul Seixas, Jair Rodrigues entre muitos outros. 
O povo brasileiro era tão apaixonado pelos festivais como eram por futebol, e, por isso, formavam-se inusitadas torcidas por cada música semelhante às torcidas de futebol, algo interessantíssimo que qualquer jovem com um mínimo de interesse por MPB gostaria de participar. 
As músicas, ainda por cima, não eram canções quaisquer que cairiam posteriormente no esquecimento (não era nada nível “Fama” ou “Ídolos”, pense em algo com proporção 50 vezes maior), com alguns exemplares lendários como “Pra não dizer que falei das flores” de Vandré, “Fio maravilha” de Ben Jor e “A banda” de Chico Buarque. Como é possível observar, estes festivais foram também responsáveis pela divulgação de músicas que tornariam fortes símbolos da resistência brasileira em face da ditadura. 
Mas o ano de 1967 é um ano especial, pois foi um ano extremamente rico de músicas lendárias, uma verdadeira seleção da MPB. São tantas músicas boas que “Alegria, Alegria” de Caetano ficou apenas em 4º; “Disparada” com Jair Rodrigues nem foi para final, e “Roda Viva” ficou apenas com o bronze (mas devia ganhar qualquer concurso que participasse). 
Este documentário feito em 2010 é um verdadeiro presente! Narra os bastidores da final deste festival, com entrevistas com os produtores, intérpretes, autores e torcedores que fizeram o festival entrar pra história. Os causos são interessantíssimos e, por vezes, engraçados. Se já rimos quando um amigo nosso conta que ficou muito embriagado e não se lembra do que fez no dia anterior, imagine ver Chico Buarque admitindo que estava de fogo na véspera do festival e não se lembrou no outro que seus colegas músicos começaram o movimento da Tropicália com ele presente. Imagine Gilberto Gil contar que participou do movimento contra a guitarra elétrica apenas porque queria ir para uma festa, já que era totalmente a favor do uso da guitarra (tanto que usou no festival com o vice “Domingo no parque”). E a minha história favorita do documentário: Caetano Veloso fazendo uma torcida que o vaiava terminar a música “Alegria, alegria” aplaudindo de pé (coisa de cinema). 
Enfim, me arrepia só de pensar neste evento histórico. Respirar algo tão lendário em seus detalhes mais comuns não pode ser visto pelo telespectador como algo diferente de um verdadeiro privilégio. Assistam!