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Julgamento de Nuremberg

Nota: 6
Ano: 1961
Ator 1: Spencer Tracy
Ator 2: Burt Lancaster
Diretor: Stanley Kramer
Oscar: Concorreu a 8 e ganhou 2.
Se enquadra nas seguintes categorias: Mão na consciência; Baseado em fatos reais; Relacionado à história; Frases de efeito; Te vejo no tribunal.

Comentário: O julgamento de Nuremberg é um dos fatos históricos mais relevantes para o mundo jurídico (talvez o mais relevante do mundo contemporâneo). O chamado “julgamento de Nuremberg”, na verdade, refere-se a uma série de julgamentos ocorridos logo após o fim da segunda guerra mundial, onde 24 agentes do mais alto escalão do partido nazista foram julgados pelos seus crimes contra a humanidade por um tribunal internacional. A importância destes julgamentos para o mundo jurídico não se limita à relevância da segunda guerra e do próprio partido nazista, mas ganhou maiores proporções por se tratar de um fato inédito para a sociedade.
Simplificando para quem não é estudante de direito: Estamos acostumados a ver pessoas sendo julgadas por cometerem atos previamente descritos pela lei como criminosos (você é punido por matar alguém por existir uma lei anterior que manda não matar). No caso, entretanto, os réus do julgamento de Nuremberg obedeceram estritamente ao ordenamento jurídico vigente na Alemanha durante a segunda guerra e os crimes que lhes eram imputados não estavam previstos em nenhuma lei a qual os alemães tivessem obrigação legal de obedecer. Entretanto, os líderes mundiais entenderam que os genocídios e demais atos do alto escalão do partido nazista resultaram em relevante ofensa aos direitos mais naturais do homem, que prescindiam de leis escritas e vigentes para serem obedecidos, de modo que todos poderiam ser julgados pelo mundo em face das atrocidades cometidas. Na verdade, foi um verdadeiro julgamento de toda a Alemanha pelo ocorrido na segunda guerra, uma forma do resto do mundo atribuir à Alemanha a culpa por todas as atrocidades que a humanidade fora vítima entre os anos de 1939-1945.
O filme em exame, por sua vez, retrata um destes muito julgamentos ocorridos: O julgamento de 4 juízes alemães que aplicavam as sentenças com base nas leis alemãs previstas para a época, como, por exemplo, a esterilização de quem se relacionava com judeus, a pena de morte, entre outros. Dentre os réus, estava a autoridade máxima do poder judiciário alemãoda época: Ernst Janning (interpretado por Burt Lancaster).
Para presidir o julgamento, fora nomeado o juiz aposentado Dan Haywood (Spencer Tracy), que se mostrava relutante com a condenação dos réus. Afinal, é difícil para um juiz, ou para qualquer outra pessoa, aceitar de pronto a idéia de que um juiz comete um crime simplesmente por aplicar a lei vigente em seu país. O simples fato dessa lei ser contrária ao que o restante do mundo acredita ser o correto faz com que o juiz deva ser responsabilizado? Um juiz que aplica a sentença de morte prevista em lei, em seu país, não estaria cometendo o mesmo crime que Janning e os outros? O restante do mundo possui ingerência sobre a soberania alemã ou de outro país a ponto de determinar quais são as leis que o juiz deve utilizar e quais não deve? A resposta não é simples, e só poderia ser em favor da condenação com base na reprovação ideológica dos atos cometidos pelos nazistas.
O filme em si é muito bem produzido, merecendo cada oscar que recebeu. Afinal, a ambientação é ótima, o roteiro é bem escrito e a apresentação de toda a problemática jurídica é de fácil acesso e esclarecedora para qualquer pessoa que desconheça o mundo judiciário. Além disso, as interpretações são de qualidade impressionante, fugindo da interpretação teatral típica dos filmes mais antigos e sendo capaz de atrair até mesmo o público contemporâneo para a situação apresentada. Spencer Tracy atende todos os requisitos para interpretar o juiz Dan, como um homem cordial, justo e atento a cada influência jurídica, filosófica e antropológica ao caso. Burt Lancaster, por sua vez, apresenta toda a altivez e erudição que se espera de alguém outrora tão influente e poderoso como Janning.
Além da trilha sonora (que é fraca), o principal ponto negativo do filme é a sua extensa duração. De fato, deve-se admitir que um filme sobre tema tão denso seja algo naturalmente cansativo, existindo uma tênue linha entre o que é interessante e o que é maçante. Portanto, o desafio de manter tal obra em uma ambientação cativante e digna de entretenimento (que é sempre um requisito inexorável do cinema) está diretamente interligado com a necessidade de que a peça seja dinâmica, com diálogos provocantes e acontecimentos reveladores. Contudo, mesmo que o filme conseguisse atingir este grau de dinamicidade por boa parte da obra (e não consegue em muitas partes), não seria possível manter esta qualidade pelas 3 longas horas de duração da película. Afinal, nem o filme de ação mais legal do mundo deixa de cansar seu público após a segunda hora de filme, imagina então um filme parado sobre um julgamento histórico recheado de discussões ideológicas... Assim, assistir a obra inteira sem bocejar, por melhor que ela seja, se revela um verdadeiro desafio.
Por fim, não gosto do deslinde final da trama. Embora a problemática seja apresentada com qualidade adequada, detesto a saída fácil e covarde que foi apresentada ao final (se não assistiu o filme, pule este parágrafo imediatamente!). A “confissão” de Janning (que admite ser criminosa sua conduta e de seus colegas) não se revela plausível, não faz jus a toda a caracterização do personagem anterior e retira do julgador a árdua decisão de reconhecer um terceiro como culpado. Há quem entenda que o filme soluciona de forma poética: Só o próprio homem, com a consciência pesada e com instutentável sentimento de culpa, pode, em face da ausência de lei que o incrimine, reconhecer a atrocidade de seus próprios atos e exigir punição. No entanto, acredito que esta versão da história aumente o seu caráter panfletário e diminua seu valor, pois dá aquela velha sensação de que é simplesmente uma história escrita por seus vencedores e não a retratação fiel de um acontecimento. Na minha opinião, o dram apresentado é enaltecido quando se ressalta que aqueles alemães tinham plena confiança de que não faziam nada errado ao obedecer as regras de seu Estado (é o que o filme “O leitor”, extremamente recomendável, mostra com uma excelência ímpar).

Assim, trata-se de um filme denso, sobre uma das questões mais tortuosas do direito internacional: Como julgar a conduta de um ser humano sem que este tenha transgredido seu próprio ordenamento jurídico? A ética é o suficiente? A soberania nacional é uma falácia? Embora o tema seja interessante, talvez seja desencorajador apresentá-lo por meio de um filme antigo de 3 horas de duração. Conhecer o evento e sua importância para a humanidade é imprescindível, mas  assistir ao filme é uma escolha (traduzindo: Não vou te falar que o filme é imperdível ou altamente recomendável). Só posso afirmar que se trata de uma ótima discussão antropológica, que me entreteve e proporcionou positivas reflexões, mas não posso garantir que alguém não tão interessado pelo tema não fique enfadado rapidamente quando assistir.