Clube da luta
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Nota: 9
Ano: 1999
Ator 1: Edward Norton
Ator 2: Brad Pitt
Diretor:
David Fincher
Oscar:
Concorreu a 1 e não ganhou nenhum.
Se enquadra
nas seguintes categorias: O
mundo é uma merda; Mão na consciência; O quê????; Frases de efeito; ????;
Escapista; Desculpinhas para criar cenas de luta; Critica à religião; Manual de
como virar um psicopata; O objetivo é chocar; Vale pela trilha sonora.
Comentário:
Como diz o filme, a primeira regra do clube da luta é: Você não fala sobre o
clube da luta! Afinal, tanto quem odeia como quem ama este filme tem sérias
dificuldades em verbalizar alguns pensamentos sobre ele. Tal dificuldade
decorre do simples fato de que “Clube da luta” é um filme irracional,
animalesco, oriundo não do cérebro ou do coração do ser humano, mas de seu
fígado (ou do fígado do Jack, segundo o protagonista). Portanto, racionalizar
algo que vem do campo irracional humano é um exercício deveras cansativo para
qualquer pessoa.
Há
quem diga que o filme retrata uma forte crítica a sociedade atual, consumista e
vazia de propósito, mas eu não consigo concordar com isso. Não acho que o filme
seriamente objetiva criticar a sociedade, sua estrutura ou a opressão ao
cidadão. Na verdade, acho que o filme é um grito psicológico natural de todo
ser humano, justificável independentemente de qual sociedade ele habita. O
verdadeiro conflito da obra está no misto de dor e prazer que assola as pessoas
que se submetem a regras de convivência. O ser humano é um ser social que, para
desfrutar de todas as vantagens de uma vida em sociedade, reprime grande
parcela de sua agressividade e seus instintos destrutivos em prol de sua eterna
necessidade de segurança, conforto e medo da solidão. A consequência da
gigantesca extravasada desta parcela reprimida de de nossa mente pode ter dois
possíveis resultados antagônicos: Ou você detesta a película e acha tudo uma
grande baboseira, ou você ama o filme sem saber justificar, ganhando ainda um
pouco de culpa por descobrir o quão troglodita você é capaz de ser.
O
roteiro retrata o desvirtuamento de Jack (Edward Norton), um homem supostamente
comum que se encontra amargurado e angustiado em face das regras de sua vida e
não sabe explicar o motivo. Ele (já mostrando toda sua perturbação) tenta
apaziguar sua mente observando a dor de terceiros, frequentando grupos de apoio
como os alcoólicos anônimos e outros como os compostos por pessoas que possuem
doenças terminais. Quando o ato de testemunhar a dor dos outros se torna
insuficiente, Jack conhece Tyler (Brad Pitt), um ser completamente distoante da
sociedade, que mostra para ele que muito mais efetivo do que aliviar sua tensão
com a dor dos outros é sentido a sua própria dor. Ambos, então, fundam o clube
da luta, local onde eles poderão irracionalmente lutar entre si, sentido e
causando dor nos seus membros por meio de lutas sem sentido. O prazer
momentâneo desta verdadeira expiação é aos poucos esvaziado pela mente humana,
que começa a perceber a idiotice de seus atos sem sentido. O que faz o ser
humano então? Ele busca racionalizar e justificar sua conduta prazerosa, seja
tornando o clube um ato de fé, como se seita religiosa fosse, seja
transformando-o em um movimento de protesto contra a sociedade capitalista. É
neste momento que o clube da luta se torna o “Projeto Caos”. Quando a
racionalização surge, o protagonista retoma a sua dor inicial: pensar e justificar
sua conduta automaticamente faz com que o protagonista tenha que suprimir
qualquer impulso primitivo em prol dos objetivos de seu grupo, é o paradoxo
entre a necessidade do homem em racionalizar e o seu desgosto por não ser
irracional.
Nos
aspectos técnicos, o filme é impecável! A atuação de Edward Norton, Brad Pitt e
Marla Singer são divinas, dando o tom essencial de neurose que o filme exige
(Brad e Marla seguirão com este talento na grande maioria de suas atuações.
Edward ganha a fama de ator genial por este filme, mas suas inconstâncias e
péssimo gosto para filmes faz com que ele esteja em um limbo neste momento: Não
sei se ele foi gênio em um filme só, ou se ele ainda é capaz de produzir mais
com a mesma qualidade. O tempo dirá!). A fotografia é excelente, provocante,
sendo impressionante como as cores de cada cena foram cuidadosamente escolhidas
para alterar todos os instintos do telespectador; é quase um alucinógeno
visual. Por fim, a trilha sonora chega a ser sublime, sendo impactante a forma
como ela consegue acompanhar todos os distúrbios sugestivos apresentados pela
película.
Para
concluir: Este filme é o típico filme que racionalmente deveria ser odiado por
todos, sendo perfeitamente compreensível a rejeição de uma minoria pela obra,
afinal, ele é repulsivo, panfletário, apelativo, cheio de alegorias mórbidas e
de um gosto efetivamente duvidável. Mas, irracionalmente, ele é ovacionado por
uma coletividade gigante. Não é difícil localizar em nossa sociedade uma massa
sedenta por ver violência em filmes mas que reage com horror perante a violência
real. Que adora mostrar sua infelicidade pelo mundo em que vive, mas que
ficaria aterrorizada se sua rotina confortável lhe fosse arrancada. “Clube da
luta” é a irracionalidade de amar algo que odiamos. Fora das telas seria uma
realidade catastrófica e reprovável, no cinema é um lúdico prazer sem fim. Não
deixe de experimentar!
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