Fale com ela
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Nota: 7
Ano: 2002
Ator 1: Darío Grandinetti
Ator 2: Javier Cámara
Diretor: Pedro Almodóvar
Oscar: Concorreu a dois oscars,
sendo premiado com uma estatueta.
Se enquadra nas seguintes
categorias: Alternativo; Antropologia poética; O objetivo é chocar.
Comentário: As obras de
Almodóvar, em geral, possuem uma fórmula básica muito comum: Elas te dão um
acontecimento bizarro e moralmente questionável, normalmente capaz de chocar a
sociedade em que vivemos. Todavia, este fato desconfortável narrado possui protagonistas
comuns, desprovidos de características extraordinárias e com defeitos presentes
em toda a sociedade, de modo que estes filmes não apenas chocam o público, mas
são responsáveis por diversas reflexões acerca do comportamento humano.
O filme “Fale com ela” não foge
desta regra, sendo é palco para inúmeras reflexões e colocações que poderiam
ser enfocadas por mim nesta resenha. Todavia, sendo inviável a discussão sofre
todas elas, tentarei enfocar sobre o questionamento que mais me assombrou após
ter assistido à película: Os possíveis fatores que são responsáveis pelo
nascedouro de um sentimento de paixão entre pessoas, e quais elementos concretizam
a manutenção desta paixão.
Este questionamento decorre do
enredo inicial aqui brevemente resumido: Marco (Darío Grandinetti) é um homem
que possuía um relacionamento amoroso com uma toureira (Rosario Flores) e esta
relação encontrava-se em fase de turbulência, não sendo possível ter certeza se
a paixão inicial sobreviveria e se tornaria um relacionamento duradouro ou se o
destino do casal seria a separação. Antes do apaziguamento e decisão final, a
toureira é vítima de uma fatalidade e entra em coma. Enquanto Marco cuida desta
mulher, conhece e se torna amigo de Benigno (Javier Cámara), um enfermeiro que
cuida por mais de 4 anos de outra mulher em coma e por ela se encontra
completamente apaixonado, apesar de nunca ter a conhecido antes que ela
perdesse a consciência.
Ora, como pode alguém se
apaixonar por uma pessoa que nunca realmente conheceu? A resposta não é
simples, e a reflexão sobre o tema nos leva diretamente a uma pergunta
anterior: O que faz nos apaixonarmos por alguém? Não são poucos que afirmam que
é natural ao ser humano projetar suas falhas e defeitos para as pessoas amadas,
de modo a acreditarmos que não estamos sós no mundo e que é possível conhecermos
alguém que seja nossa alma gêmea, a qual finalmente nos completará e nos fará
sentir a felicidade plena. É certo que tais projeções podem ser frutos de uma falácia,
e as frustrações com as diferenças havida entre os enamorados, por muitas vezes,
resultam em conflitos que podem ocasionar no fim natural da relação (por
exemplo: o fato de uma pessoa ter a mesma banda favorita que você não significa
que ela é a melhor pessoa para te sentir completo. Mas a sua vontade de se
identificar e se relacionar faz com que você ignore que ela não tem as mesmas
preferências políticas, os mesmos desejos, as mesmas ambições ou uma
personalidaded compatível com a sua. Então, equivocadamente, você afirma que
ela nasceu para ficar com você...ledo engano).
Assim, olhando por este aspecto,
o ato de se apaixonar por alguém em coma não é tão inaceitável como
inicialmente aparenta. Afinal, as frustrações com as projeções fantasiosas não
ocorrem! O sentimento de que aquele ser inconsciente é doce, puro, atencioso,
bondoso e etc. não desaparecerá com o passar do tempo, e os prováveis conflitos
de uma relação são adiados para o infinito. Porém, devemos admitir que um
relacionamento não se resume a tais projeções; a falta de resultados fáticos em
um relacionamento provavelmente se tornará insustentável. Com efeito, uma companhia
de alguém não consciente pode ser equiparado a uma não companhia. Sobre este
ponto de vista, a relação imaginária com alguém em coma tende ao fracasso
certo.
Para Marco e sua toureira, a
reflexão é outra: Ele já conhece muitas das diferenças que frustram suas
projeções iniciais; ele não guarda mais a utopia de que ela é sua alma gêmea
perfeita. Todavia, o relacionamento não havia chegado ao ponto do conflito decisivo
em que se decidiria pela separação definitiva ou pela superação do obstáculo, e
toda a tempestade foi superficialmente contida pela inconsciência da mulher.
Como abandonar alguém que você não possui a certeza de que é seu amor, mas que
não é possível gerar o conflito que resultará na separação?
O tema apresentado é complexo e
não possui resposta pronta, e é só um dos ingredientes retratados no filme. As
atitudes dos dois homens perante seus conflitos são intrigantes (ética e moralmente
questionáveis), sendo palco para inúmeras outras reflexões que infelizmente não
serão aqui retratadas.
A fotografia é muito bem feita.
Alías, Almodóvar é uma exceção à regra de que filmes fora de Hollywood possuem
fotografias de qualidade inferior. Os filmes do direitor em questão superam,
por muitas vezes, as técnicas convencionas e de qualidade inquestionável do
paraíso do cinema americano. A atuação de Javier Cámara no filme é brilhante!
Ele rapidamente se destaca na obra, já que os demais atores não chegam nem
perto do nível de qualidade que ele apresenta na presente película (ouso dizer
que as demais atuações são insossas e diminuem um pouco o sucesso do produto
final).
“Fale com ela” é uma obra que
deixa o público pensativo, cansado e pode gerar resultados inesperadamente
positivos ou negativos na psique humana (e talvez seja por isso que o filme
seja amado por muitos e odiado por outros tantos). Um filme de Almodóvar não é
recomendado para qualquer tipo de pessoa: são filmes parados, intensos,
provocativos e com o óbvio intuito de causar desconforto. Se este tipo de filme
não lhe cativa, não recomendo que veja qualquer obra do diretor. Mas se a
curiosidade aparece, “Fale com ela” é uma das melhores obras de sua
filmografia, se não for a melhor.
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